Estudo pioneiro do Inca busca implementar rastreamento precoce de câncer de pulmão no SUS
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) deu um passo decisivo para transformar o cenário da oncologia pública no Brasil. No início deste mês de abril, a instituição anunciou o lançamento de uma pesquisa inédita que testará a viabilidade de um programa nacional de rastreamento para o câncer de pulmão dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e com suporte financeiro da AstraZeneca, o projeto visa coletar evidências científicas sólidas para fundamentar futuras diretrizes do Ministério da Saúde.
A iniciativa foca na detecção precoce como ferramenta principal para reduzir a letalidade da doença. Atualmente, o câncer de pulmão é o que mais mata brasileiros, superando inclusive a soma dos óbitos por tumores de mama e próstata. Em 2024, o Atlas de Mortalidade registrou mais de 32 mil mortes pela enfermidade, um número impulsionado pelo fato de que 84% dos casos só são descobertos em estágios muito avançados.
Tecnologia e cessação do tabagismo como pilares de cura
O coração da pesquisa é a utilização da tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD). Dados internacionais sugerem que o uso dessa tecnologia em grupos de risco pode inverter a lógica do diagnóstico: hoje, 90% dos casos são detectados tardiamente; com o rastreamento, esse índice pode cair para 30%.
De acordo com o Jornal Brasileiro de Pneumologia, a aplicação da TCBD isoladamente reduz a mortalidade em 20%. No entanto, o benefício é potencializado quando o exame é aliado ao abandono do cigarro, elevando a redução de mortes para 38%. Por isso, o estudo selecionará voluntários entre os 50 mil participantes do Programa de Cessação de Tabagismo da prefeitura carioca.
Critérios de seleção e foco na alta complexidade
O acompanhamento será liderado pelo epidemiologista Arn Migowski e terá duração inicial de dois anos, contando com pelo menos 397 pacientes. Os critérios de elegibilidade seguem consensos médicos rigorosos: pessoas entre 50 e 80 anos que fumam ou deixaram o vício nos últimos 15 anos, com um histórico de carga tabágica equivalente a um maço por dia durante duas décadas.
Caso o exame aponte a presença de um tumor, o paciente não ficará desamparado. O tratamento e o suporte contínuo serão realizados pelo Hospital do Câncer I (HC I), unidade de referência do Inca integrada à rede de alta complexidade do SUS. O objetivo do projeto “vida real” é entender como o protocolo se adapta às particularidades do sistema público antes de uma possível expansão para todo o território nacional.
Novos desafios: do tabaco convencional ao avanço dos vapes
A urgência do estudo também é motivada por uma mudança preocupante no perfil do tabagismo no Brasil. Pela primeira vez em 15 anos, houve um aumento na prevalência do hábito, impulsionado especialmente pelos dispositivos eletrônicos, conhecidos como vapes. Gustavo Prado, da Aliança Brasileira de Combate ao Câncer de Pulmão, alerta que o uso cresce entre jovens de 18 a 24 anos, o que exige novas linguagens de prevenção.
Com a estimativa de 781 mil novos casos de diversos tipos de câncer por ano no triênio 2026-2028, o fortalecimento de parcerias público-privadas e a ciência aplicada tornam-se vitais. Para a AstraZeneca, o objetivo da colaboração vai além do fornecimento de fármacos, focando na alteração da história natural da doença no país por meio de diagnósticos feitos a tempo de salvar vidas. Com informações da Agência Brasil

