Resiliência e reinvenção: pandemia foi o combustível para a explosão de novos negócios nas favelas

O empreendedorismo nas periferias brasileiras não é apenas uma engrenagem econômica, mas uma resposta vital a crises globais. Uma pesquisa inédita realizada pelo instituto Data Favela revela que 56% dos estabelecimentos comerciais e de serviços operando em comunidades foram abertos após fevereiro de 2020. O dado evidencia que a crise sanitária da covid-19 forçou milhões de brasileiros a transformarem habilidades pessoais em fontes de renda para garantir a sobrevivência familiar.

De acordo com o levantamento, realizado em parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) e a empresa VR, 12% desses negócios surgiram no auge da crise sanitária, enquanto outros 44% foram estabelecidos a partir de maio de 2022. Para Cleo Santana, do Data Favela, o movimento reflete a capacidade de reinvenção do morador, que passou a comercializar de alimentos a artesanatos como alternativa ao desemprego.

O rosto do empreendedorismo periférico e o desafio do faturamento
A história da designer Ligia Emanuel da Silva, que produz adornos de inspiração africana na Paraíba, ilustra bem esse cenário. O que começou com uma maleta de miçangas durante o isolamento social tornou-se um ato político e econômico. No entanto, o sucesso criativo esbarra em uma realidade financeira apertada: a pesquisa aponta que 51% dos empreendedores de favela faturam, no máximo, R$ 3.040 mensais.

A margem de lucro é estreita. Para 57% dos entrevistados, os custos fixos para manter as portas abertas também giram em torno de R$ 3.040, o que sugere que muitos operam no limite entre a receita e a despesa. O capital inicial para começar também é modesto: 37% investiram até R$ 1.520 para dar o primeiro passo, sendo que a principal fonte de recursos (57%) veio de economias pessoais ou auxílio de familiares.

Gestão no caderno e a força das redes sociais
A digitalização dos processos de gestão ainda é um horizonte distante para a maioria. Quase 60% dos donos de negócios fazem o controle financeiro apenas com anotações em cadernos, e 13% admitem não realizar registro algum. Em contrapartida, as redes sociais são as grandes aliadas nas vendas: o Instagram (75%) e o WhatsApp (58%) lideram como canais de divulgação, superando métodos tradicionais.

As áreas de atuação mais comuns são:
Alimentação e bebidas: 45%

Beleza: 13%

Moda: 12%

Artesanato: 8%

Barreiras ao crédito e impacto na economia local
Embora as favelas brasileiras movimentem impressionantes R$ 300 bilhões por ano, o acesso ao sistema bancário formal continua sendo o principal obstáculo. Para 51% dos empreendedores, a falta de capital é a maior dificuldade, agravada pela resistência das instituições financeiras em conceder crédito (citada por 25%).

Mesmo com essas travas, a economia interna das comunidades é sustentável. Conforme destaca Cleo Santana, os microempreendedores tendem a comprar de outros vizinhos, criando uma rede de fortalecimento local. Atualmente, 16,4 milhões de brasileiros vivem em favelas — cerca de 8% da população —, sendo a maioria composta por pretos e pardos (72,9%), que encontram no próprio negócio a autonomia que o mercado formal muitas vezes lhes nega. Com informações da Agência Brasil

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