Estudo identifica variedade de arroz imune a cigarrinha

Uma investigação conduzida pela Embrapa Arroz e Feijão, unidade sediada em Goiás, identificou dois materiais genéticos de arroz capazes de conter o avanço da cigarrinha-do-arroz (Tagosodes orizicolus). O inseto, também denominado sogata, passou a gerar apreensão na rizicultura nacional devido ao aumento das infestações e aos prejuízos provocados pela sucção de seiva. As perdas nas lavouras, tanto em modalidades irrigadas quanto em terras altas, podem atingir a totalidade da produção dependendo da severidade do ataque. Para auxiliar no controle, os cientistas destacaram o desempenho favorável da cultivar BRS A705, lançada comercialmente em 2022, e do genótipo BGA 6914, mantido no Banco Ativo de Germoplasma da instituição.

Com dimensões reduzidas que se comparam à cabeça de um alfinete, medindo entre 2 e 3 milímetros, o inseto possui capacidade de multiplicação célere. Ao retirar a seiva de colmos, folhas e panículas, a praga ocasiona o secamento, a alteração na coloração e a morte da vegetação. Durante a alimentação, a espécie secreta um fluido açucarado que estimula o aparecimento da fumagina, fungo de tom escuro que cobre as folhas e reduz a capacidade fotossintética da planta.

O pesquisador José Alexandre Barrigossi, um dos coordenadores das avaliações na Embrapa Arroz e Feijão, detalha que o inseto é classificado como uma praga emergente. Anteriormente presente no território brasileiro sem causar danos expressivos às lavouras irrigadas ou de terras altas, a espécie passou a registrar focos populacionais pontuais que acenderam o alerta do setor produtivo. Relatos de ocorrências foram computados em áreas irrigadas de Santa Catarina a partir de 2018 e no Vale do Paraíba, em São Paulo, no ano de 2020.

Causas dos surtos e falta de defensivos registrados
O especialista explica que a ausência de registros de superpopulações da cigarrinha-do-arroz no passado ocorria, possivelmente, devido à ação constante do controle biológico natural. No entanto, os surtos identificados nos últimos anos podem estar associados a fatores climáticos, como verões mais quentes e secos que aceleram a reprodução do inseto, além do uso de inseticidas químicos que eliminam os predadores naturais da praga.

Por se tratar de um organismo nocivo de emergência recente, a cigarrinha-do-arroz ainda não figura na relação dos principais insetos causadores de danos à cultura do arroz. Em razão dessa condição, não existem produtos químicos registrados perante o Ministério da Agricultura e Pecuária voltados especificamente ao combate da espécie.

Avanço no melhoramento e integração de métodos
Os experimentos conduzidos pela equipe científica duraram dois anos e buscaram mensurar a resistência de cultivares, além de mapear fontes genéticas aplicáveis aos programas de melhoramento da cultura. As etapas de análise ocorreram em estruturas laboratoriais e em casas de vegetação teladas na cidade de Santo Antônio de Goiás.

Durante os trabalhos, foram examinados aspectos de atração alimentar, impacto no desenvolvimento e capacidade reprodutiva do inseto. A cultivar BRS A705 e o genótipo BGA 6914 apresentaram a menor atratividade para o inseto, prejudicando diretamente o ciclo biológico e a sobrevivência da praga.

Barrigossi ressalta que o mapeamento dessas fontes de resistência representa um avanço estrutural para a contenção do inseto, permitindo que os programas de melhoramento utilizem esses materiais como doadores de genes. O pesquisador salienta que a adoção de plantas com resistência parcial, quando combinada a outras práticas de manejo, reduz a necessidade de pulverizações químicas.

O cientista complementa que a integração de diferentes táticas de controle, incluindo a escolha de variedades resistentes, configura o caminho sustentável para o manejo da sogata, uma vez que o combate exclusivo via produtos químicos não garante eficácia contínua. Os próximos passos das investigações envolvem a criação de ferramentas de monitoramento em campo, o desenvolvimento de novas linhagens resistentes, o teste de produtos biológicos e a avaliação de insumos químicos.

Características da praga e plantas hospedeiras
A espécie Tagosodes orizicolus possui relevância econômica consolidada na América do Sul, em países como Colômbia, Venezuela, Equador e Peru, além de países do Caribe, a exemplo de Cuba. Embora a cultura do arroz seja a opção preferencial do inseto, a praga consegue se estabelecer em outras gramíneas de cultivo, incluindo aveia, trigo, cevada, centeio e sorgo.

A infestação nas lavouras pode ter início a partir da fase de perfilhamento do arroz, registrando pico populacional durante os meses de verão. Os indivíduos adultos deslocam-se voando de áreas adjacentes e ocupam inicialmente as bordas das plantações. Conforme a população se expande, os insetos avançam para o interior dos cultivos, formando manchas concentradas conhecidas como reboleiras, onde os danos se manifestam de forma mais severa. Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa.

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