Câncer do colo do útero pode avançar sem sintomas e exige prevenção

O câncer do colo do útero pode se desenvolver silenciosamente, sem apresentar sinais perceptíveis nas fases iniciais. Por isso, a vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), a realização de exames preventivos e o acompanhamento ginecológico regular são medidas fundamentais para reduzir os riscos e identificar alterações antes que a doença avance.

Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 19.310 novos casos desse tipo de câncer por ano no triênio de 2026 a 2028. A doença ocupa a terceira posição entre os cânceres mais incidentes na população feminina brasileira, quando desconsiderados os tumores de pele não melanoma.

A ginecologista Erika Vivianni Amaral da Cunha, médica do Ambulatório Médico de Especialidades (AME), explica que a ausência de sintomas no início dificulta a percepção da doença e reforça a importância dos cuidados preventivos.


HPV está associado à maioria dos casos
O câncer do colo do útero é um tumor maligno que, na maioria dos casos, está relacionado à infecção persistente pelo HPV. De acordo com Erika Vivianni Amaral da Cunha, aproximadamente 99% dos casos têm relação com o vírus, transmitido principalmente pelo contato sexual.

A especialista explica que o HPV pode penetrar nas células do colo uterino por meio de pequenas lesões na mucosa. A partir daí, determinadas infecções podem provocar alterações celulares que, ao longo do tempo, favorecem o desenvolvimento do câncer.

Embora o contato com o vírus seja frequente, nem todas as pessoas infectadas desenvolverão a doença. A médica ressalta que existem mais de 200 tipos de HPV, com diferentes características e níveis de agressividade, e que a evolução para um tumor depende de diversos fatores.

Entre as condições que podem aumentar a exposição ao vírus, Erika cita o início precoce da vida sexual e o maior número de parceiros. Segundo ela, o tecido do colo uterino ainda imaturo nas pacientes mais jovens pode facilitar a entrada do HPV nas células.

A ginecologista também destaca a influência de outras infecções. A presença de bactérias e de outros vírus pode comprometer os mecanismos de proteção locais, favorecendo a entrada do HPV e aumentando os riscos de alterações celulares.

Tabagismo também aumenta os riscos
O cigarro é apontado pela médica como um importante fator associado ao desenvolvimento do câncer do colo do útero. Os efeitos do tabagismo não se restringem ao sistema respiratório, podendo contribuir para o surgimento de tumores em outras regiões do organismo.

Conforme explica Erika, substâncias presentes no cigarro prejudicam células envolvidas na defesa da mucosa, conhecidas como células de Langerhans. Com a redução dessa proteção, o organismo pode apresentar mais dificuldade para combater a infecção pelo HPV, favorecendo alterações que podem evoluir para um câncer.

A prevenção, portanto, envolve não apenas evitar a infecção pelo vírus, mas também reduzir fatores que comprometem as defesas do organismo e manter os cuidados regulares com a saúde ginecológica.

Doença pode apresentar sinais quando já está avançando
Nas fases iniciais, o câncer do colo do útero geralmente não provoca manifestações evidentes. Quando a doença progride, porém, podem surgir sintomas que exigem avaliação médica.

Entre os sinais citados pela ginecologista estão corrimento aquoso com presença de sangue, secreção com odor forte, sangramento durante as relações sexuais e dor na região pélvica.

As manifestações podem variar conforme a localização e a extensão da lesão. Quando o tumor está restrito à região inicial do colo uterino, pode provocar sangramento durante a relação sexual e corrimento com mau cheiro. Se houver comprometimento de estruturas próximas, como bexiga e intestino, podem aparecer outros sintomas, incluindo dor pélvica, sangramento ao urinar e sangramento ao evacuar.

A médica alerta que esperar o aparecimento desses sinais não é uma estratégia segura. Como a doença pode evoluir sem apresentar sintomas, os exames preventivos são essenciais mesmo quando a mulher não percebe nenhuma alteração.

Vacinação contra o HPV é uma das principais formas de prevenção
A imunização contra o HPV é considerada pela especialista uma das medidas mais importantes para combater a doença. A vacina ajuda a prevenir infecções pelos tipos do vírus responsáveis pela maioria dos casos de câncer do colo do útero e também contribui para reduzir o risco de outros tumores associados ao HPV, como os de vagina, vulva, ânus e orofaringe.

Erika destaca a importância de vacinar meninas e meninos na faixa etária recomendada, antes da exposição ao vírus. A imunização está disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), conforme os critérios definidos pelo Ministério da Saúde.

Em 2026, o esquema de rotina prevê dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos. A vacinação também foi prorrogada até 31 de dezembro de 2026 para jovens de 15 a 19 anos que ainda não receberam o imunizante. Pessoas imunossuprimidas e vítimas de violência sexual, entre outros públicos específicos, podem ter indicação de esquemas diferenciados.

A orientação é procurar uma unidade de saúde para verificar os critérios de vacinação e manter a imunização em dia.

A ginecologista também ressalta a importância do preservativo nas relações sexuais. Embora a camisinha seja fundamental para reduzir o risco de diversas infecções sexualmente transmissíveis, ela não elimina completamente a possibilidade de transmissão do HPV, uma vez que o vírus pode ser transmitido pelo contato com regiões da pele e das mucosas que não ficam cobertas pelo preservativo.

Por isso, a prevenção deve combinar proteção nas relações sexuais, vacinação e acompanhamento ginecológico.

Exames preventivos permitem identificar alterações precocemente
A realização periódica dos exames ginecológicos é indispensável porque o colo uterino não pode ser avaliado adequadamente apenas pela observação externa da própria mulher ou do parceiro.

Erika explica que o exame clínico permite visualizar a região com o auxílio de um espéculo, instrumento utilizado durante a avaliação ginecológica. Quando necessário, a colposcopia possibilita observar o colo uterino com ampliação, ajudando a identificar áreas suspeitas.

Outro procedimento importante é a coleta de células para análise laboratorial, utilizada para detectar alterações que podem indicar a presença de lesões. Caso sejam encontradas áreas suspeitas durante a avaliação, pode ser necessária a retirada de um pequeno fragmento de tecido para investigação.

A médica reforça que o exame preventivo é fundamental para reconhecer alterações celulares antes que elas evoluam para um quadro mais grave. Dessa forma, a identificação precoce permite avaliar a necessidade de acompanhamento ou tratamento adequado.

Rede pública encaminha pacientes conforme os resultados
A organização do atendimento também contribui para ampliar o acesso à prevenção. Segundo Erika, diante do grande número de mulheres que precisam realizar exames, as equipes de enfermagem participam da coleta de material para análise citológica na rede pública de saúde.

Quando os resultados dos exames ou a avaliação visual indicam alterações, as pacientes são encaminhadas ao Ambulatório Médico de Especialidades (AME) para investigação complementar.

Se houver confirmação de lesões que necessitem de tratamento, os encaminhamentos são realizados conforme a necessidade de cada caso. A especialista informa que algumas pacientes são direcionadas para atendimento em Divinópolis, enquanto outras podem ser encaminhadas para serviços em Divinópolis ou Itaúna.

A médica também observa que a ocorrência do câncer do colo do útero varia entre as regiões brasileiras. No Sudeste, segundo o material apresentado pela especialista, a doença ocupa a quinta posição entre os cânceres mais comuns, cenário que ela relaciona à maior disponibilidade de assistência em comparação com outras regiões do país.

Acompanhamento ginecológico não deve depender de sintomas
Para Erika Vivianni Amaral da Cunha, um dos principais desafios é conscientizar as mulheres de que a ausência de dor ou de outros sinais não significa que esteja tudo bem. Diferentemente de problemas de saúde que provocam manifestações imediatas, as alterações no colo uterino podem permanecer sem serem percebidas durante um período.

A ginecologista defende que a prevenção seja incorporada à rotina de cuidados, sem que a mulher espere o surgimento de sintomas para procurar atendimento.

Em Pará de Minas, quem deseja obter orientações sobre a vacinação contra o HPV, os exames preventivos e os serviços disponíveis pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência ou a Secretaria Municipal de Saúde.

A combinação entre imunização, exames recomendados e acompanhamento profissional regular é fundamental para identificar precocemente possíveis alterações e ampliar as possibilidades de tratamento. Como a doença pode evoluir silenciosamente, manter os cuidados preventivos é uma medida importante para proteger a saúde da mulher.

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