Inovação simples no bebedouro de bezerros reduz comportamentos indesejados e eleva bem-estar no campo
Um pequeno ajuste no manejo de bezerros leiteiros está trazendo grandes ganhos para a saúde animal e a produtividade nas fazendas. Pesquisas realizadas pela Embrapa Pecuária Sudeste, em São Carlos (SP), revelaram que o uso de bebedouros equipados com bicos artificiais é uma estratégia eficaz para reduzir drasticamente a chamada “sucção cruzada”. O estudo, desenvolvido em colaboração com a Unesp de Botucatu, aponta que essa alternativa simples satisfaz o instinto natural dos animais e previne lesões graves em sistemas de criação coletiva.
O desafio da sucção cruzada na criação em grupo
Embora a criação de bezerros em grupos seja benéfica para a socialização e o desenvolvimento cognitivo, muitos produtores ainda temem o hábito da mamada cruzada. Esse comportamento ocorre quando um filhote tenta sugar partes do corpo de outro colega de rebanho, como o umbigo, o escroto ou o úbere.
De acordo com a pesquisadora Teresa Alves, da Embrapa, esse ato é um reflexo da falta de estímulos adequados. Quando os bezerros são separados precocemente da mãe e recebem leite em horários restritos, o desejo instintivo de sugar permanece insatisfeito. Sem o bico artificial, eles acabam direcionando essa necessidade para os companheiros de lote, o que pode causar inflamações umbilicais, formação de bolas de pelo no estômago e danos permanentes às glândulas mamárias, comprometendo a futura produção de leite.
Como o bico artificial transforma o comportamento animal
O experimento comparou animais da raça Jersolanda em dois cenários: um com bebedouros tradicionais (baldes abertos) e outro com bebedouros adaptados com bicos. Os resultados foram contundentes:
Redução da frequência: nos grupos com bico, a sucção cruzada ocorreu cerca de cinco vezes ao dia, contra nove vezes nos grupos com bebedouros abertos.
Fim das lesões graves: comportamentos perigosos, como a sucção do escroto ou da base do úbere, foram registrados apenas nos animais que bebiam água em baldes abertos.
Instinto satisfeito: o uso do bico exige que o bezerro faça mais força para beber, o que estimula a salivação e gera uma sensação de saciedade e conforto psicológico.
Interessante notar que os bezerros com acesso ao bico utilizaram o equipamento inclusive durante a noite. Os pesquisadores acreditam que essa seja uma resposta compensatória para satisfazer a vontade de mamar fora dos horários fixos da alimentação láctea.
Eficiência no manejo e crescimento garantido
Além dos benefícios diretos ao animal, a pesquisa comprovou que o método não prejudica o desempenho zootécnico. O consumo de água, a ingestão de ração e o ganho de peso foram semelhantes em ambos os tratamentos. Ou seja, o bezerro se sente mais satisfeito sem precisar ingerir volumes excessivos de líquido.
Para o produtor, a criação em grupo facilitada por esse dispositivo também otimiza a mão de obra. Animais socializados tendem a ser mais dóceis e fáceis de lidar. O tempo gasto para tratar um lote coletivo é equivalente ao manejo individual, mas com a vantagem de ter animais mais resilientes e menos estressados durante a fase crítica do desmame.
Sustentabilidade e Saúde Única
A adoção de tecnologias de baixo custo que respeitem a biologia do animal é um pilar da pecuária moderna. Ao proporcionar um ambiente que simula a experiência natural de sucção, a fazenda reduz a necessidade de tratamentos veterinários para inflamações e ferimentos, elevando o padrão de bem-estar. O estudo reforça que soluções inteligentes não precisam ser complexas ou caras; muitas vezes, basta entender o comportamento da espécie para transformar a realidade do campo. Com informações da Embrapa


