Comida mais cara: estudo revela que inflação de alimentos no Brasil é estrutural e favorece ultraprocessados

Um levantamento inédito acende o alerta sobre o custo de vida no Brasil ao demonstrar que o aumento nos preços da comida não é um evento passageiro. O estudo, realizado pelo economista Valter Palmieri Junior em parceria com a ACT Promoção da Saúde e a Agência Bori, revela que a inflação de alimentos no país é um fenômeno estrutural. Isso significa que as altas não dependem apenas de safras ruins ou variações do dólar, mas estão enraizadas no modelo econômico brasileiro.

Nos últimos 20 anos, o custo da alimentação saltou 302,6%, um valor quatro vezes maior que o inicial. Para se ter uma ideia da gravidade, esse aumento supera a inflação oficial (IPCA) em 62%. Enquanto o índice geral de preços subiu 186,6% entre 2006 e 2025, encher o prato tornou-se um desafio muito mais árduo para o bolso do cidadão.

O abismo entre o prato saudável e o industrializado
A pesquisa destaca uma distorção preocupante: o poder de compra para alimentos frescos despencou, enquanto produtos ultraprocessados tornaram-se comparativamente mais acessíveis. O consumo de frutas e hortaliças viu o poder de compra cair cerca de 30% em duas décadas. No caminho inverso, itens como refrigerantes, presuntos e mortadelas tiveram um aumento no poder de compra de até 87%.

Essa diferença ocorre porque os ultraprocessados utilizam ingredientes industriais e aditivos químicos que sofrem menos oscilação de preço que os produtos in natura. “A inflação direciona as escolhas para produtos menos saudáveis”, alerta o pesquisador, apontando que essa mudança de padrão alimentar impacta diretamente a saúde pública.

Modelo agroexportador e a fuga de alimentos
Um dos pilares dessa inflação permanente é a prioridade dada ao mercado externo. O Brasil consolidou-se como um gigante exportador, saltando de 24,2 milhões de toneladas exportadas em 2000 para 209,4 milhões em 2025. O foco em commodities como soja, milho e cana-de-açúcar reduziu drasticamente o espaço para a comida que vai à mesa do brasileiro.

Enquanto a área de cultivo para exportação quase dobrou, o território destinado ao plantio de arroz, feijão, mandioca e hortaliças encolheu de 10,22 milhões para apenas 6,41 milhões de hectares — uma área menor que muitos estados brasileiros. Essa escassez interna, somada à cotação em dólar, mantém os preços elevados mesmo quando as crises passam.

Insumos caros e a “inflação invisível”
O estudo também identifica uma dependência tecnológica crítica. O custo de fertilizantes subiu impressionantes 2.423% no período analisado, enquanto o preço de colheitadeiras avançou 1.765%. Como esses insumos são controlados por poucos oligopólios estrangeiros, o custo de produção sobe para todos, inclusive para o pequeno produtor de feijão que vende apenas no mercado local.

Além disso, o economista aponta para a “inflação invisível”: quando o preço de um produto nas prateleiras se mantém estável, mas sua qualidade cai. É o caso de chocolates que perdem cacau para ganhar açúcar ou sorvetes com menos leite. Como o consumidor paga o mesmo por um produto inferior, ocorre uma perda de valor que não é captada pelos índices oficiais.

Caminhos para a soberania alimentar
Para reverter esse quadro, o estudo sugere mudanças profundas na organização econômica do país. Entre as soluções propostas estão:
Fortalecimento da Conab e das Ceasas: para garantir o abastecimento interno;

Crédito condicionado: financiar produtores que se comprometam com o mercado nacional;

Reforma agrária: facilitar o acesso à terra para aumentar a produção diversificada de alimentos;

Desconcentração produtiva: reduzir o poder de grandes corporações sobre sementes e insumos.

“Se o alimento é barato, sobra dinheiro para o cidadão consumir em outros setores, o que beneficia toda a economia”, conclui Palmieri Junior.
Com informações da Agência Brasil

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