Mapeamento inédito do cacau na Amazônia desafia mitos

Avanço sustentável na região
Um estudo inovador conduzido pela Embrapa Amazônia Oriental, em parceria com a Universidade Estadual do Pará (Uepa) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), traçou um raio-X inédito da cacauicultura no Pará e em Rondônia. O mapeamento analisou 121 mil hectares cultivados e revelou que a expansão do plantio de cacau na Amazônia brasileira não promove o desmatamento da floresta nativa. Em vez disso, o cultivo tem avançado sobre áreas anteriormente alteradas, com destaque para pastagens degradadas e vegetação secundária, funcionando como um instrumento de restauração ambiental e geração de renda.

Para alcançar um alto nível de precisão, a pesquisa combinou o uso de sensoriamento remoto, dados de radar, inteligência computacional e auditoria direta em campo. Esse cruzamento de dados com os projetos Prodes e TerraClass, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), atende às demandas crescentes de sustentabilidade e rastreabilidade exigidas pelos mercados globais.

Segundo o pesquisador Adriano Venturieri, autor principal do levantamento, o cacaueiro cumpre um papel estratégico no território amazônico por recuperar solos empobrecidos e devolver utilidade econômica a paisagens agrícolas antes desgastadas.

Panorama da safra regional
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte é responsável por metade de todo o cacau colhido no Brasil, somando cerca de 148 mil toneladas de um total nacional de 297 mil toneladas. O estado do Pará lidera o ranking do país com 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume que representa 46% da produção brasileira e 92% do montante da região Norte.

Por sua vez, Rondônia ocupa a segunda posição na região e a quarta no cenário nacional, com uma colheita estimada em 8,6 mil toneladas. Apesar de possuir uma área menor em comparação aos paraenses, o estado destaca-se pela alta eficiência técnica, registrando produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare.

Metodologia de georreferenciamento
Mapear as lavouras de cacau na floresta amazônica exigiu métodos avançados, já que as copas dos cacaueiros em sistemas sombreados se assemelham visualmente à mata nativa. Para superar a barreira técnica, os cientistas utilizaram imagens de satélite com resolução de 50 centímetros, capazes de identificar detalhes de meio metro no solo e diferenciar lavouras a pleno sol de Sistemas Agroflorestais (SAFs).

A checagem dos dados computacionais incluiu expedições presenciais a dez municípios da Transamazônica e do Nordeste Paraense, além de diferentes localidades em Rondônia. Conforme destaca Venturieri, o alinhamento entre dados orbitais e checagem no solo garantiu altíssima precisão ao levantamento.

Expansão da área no Pará
No Pará, os dados atualizados para 2024 mostram que o cultivo de cacau abrange 116.436 hectares em 61 municípios. Frente aos 87.309 hectares registrados no levantamento de 2022, o estado teve um salto de 33,26% na área plantada, somando 29.128 novos hectares em apenas dois anos.

Entretanto, o relatório faz um alerta sobre a estrutura dessa expansão. Do incremento registrado no período, 63% (18.350 hectares) ocorreram na modalidade de monocultivo a pleno sol, enquanto 37% (10.777 hectares) foram implantados em Sistemas Agroflorestais. Venturieri pondera que a preferência pelo cultivo a pleno sol atende a retornos financeiros imediatos, sinalizando a necessidade de políticas públicas que incentivem os modelos agroflorestais devido aos seus serviços ecológicos.

A base produtiva paraense é fortemente familiar, com 31.843 áreas mapeadas. Desse total, 84,65% têm dimensão de até 5 hectares e 74,55% estão em propriedades de até 50 hectares. Os municípios com maior área cultivada são Medicilândia (35.203 ha), Uruará (17.024 ha), Brasil Novo (10.162 ha), Altamira (7.301 ha) e Tomé-Açu (6.981 ha).

Radiografia inédita de Rondônia
Pela primeira vez, Rondônia contou com um mapeamento territorial completo, estabelecendo uma linha de base de 5.340 hectares cultivados em 51 municípios. Diferentemente do Pará, o modelo rondoniense é amplamente dominado por Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas com cacau (5.339,83 ha), 62% (3.310 ha) correspondem a SAFs e 38% (2.029 ha) ao cultivo a pleno sol.

O setor no estado também é pulverizado na agricultura familiar, somando 38.108 áreas identificadas, sendo que 75% correspondem a pequenas parcelas de até 5 hectares. Os maiores polos municipais são Jaru (832,13 ha), Porto Velho (352,87 ha), Theobroma (305,43 ha), Ouro Preto do Oeste (297,41 ha) e Mirante da Serra (260,28 ha). Juntos com outros seis municípios, o grupo responde por 62,6% da área estadual.

Para o pesquisador da Embrapa, o perfil de Rondônia é um ativo promissor por já nascer estruturado em bases socioambientais preservacionistas.

Rastreabilidade e mercado externo
A checagem ambiental revelou que 96% das áreas cultivadas no Pará e 98% em Rondônia foram desflorestadas antes de 2020. A informação é vital para atender ao Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que impede a compra de commodities vindas de locais desmatados após 31 de dezembro de 2020.

O estudo apontou que apenas 3,9% do cacau em áreas antropizadas no Pará e 2% em Rondônia foram instalados em terrenos desmatados após 2021, garantindo dados seguros para a gestão de risco dos exportadores. Além disso, foram mapeados 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia onde o cacau é plantado sob a copa de florestas nativas.

Venturieri reforça que o mapeamento é um instrumento essencial de rastreabilidade e que o desafio central da região é crescer com qualidade territorial e sustentabilidade. Na avaliação de Vitor Stella, representante do CocoaAction Brasil, o conhecimento detalhado da expansão ajuda a prever o futuro da cadeia, identificar gargalos, direcionar assistência técnica e otimizar investimentos públicos para gerar renda ao produtor.

Autoria da pesquisa
O documento técnico intitulado Mapeamento das áreas da cacauicultura nos estados do Pará e Rondônia: implicações para o desenvolvimento territorial foi elaborado por Adriano Venturieri, Moisés Cordeiro Mourão de Oliveira Júnior, Sandra Maria Neiva Sampaio e Antônio José de Amorim Menezes (Embrapa Amazônia Oriental), além de Rodrigo Rafael Souza de Souza (Uepa) e Marcelo Cordeiro Thales (MPEG). Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa.

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