Com emprego aquecido, subutilização da força de trabalho atinge o menor patamar da história
O dinamismo do mercado de trabalho nacional tem gerado impactos positivos em indicadores que extrapolam os dados tradicionais de desocupação. A mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, apontou que o país atingiu o menor índice de subutilização de mão de obra desde o início do acompanhamento estatístico.
O indicador recuou para 13,3% no trimestre móvel finalizado no mês de maio. A marca supera o recorde favorável anterior, que havia sido estabelecido no último trimestre do ano de 2025, quando o índice se fixou em 13,4%.
Os dados foram apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pela manutenção da série histórica iniciada no ano de 2012. A metodologia da Pnad analisa as condições ocupacionais da população com idade igual ou superior a 14 anos, englobando todas as modalidades de inserção profissional, o que inclui postos com carteira assinada, vagas informais, atividades temporárias e profissionais autônomos.
Entenda o conceito técnico de subutilização
Diferente da taxa de desocupação convencional — que mensura estritamente a proporção de cidadãos que buscaram uma vaga de maneira ativa e não obtiveram sucesso, índice que se posicionou em 5,6% até maio —, a subutilização funciona como uma régua mais abrangente. Ela mede a fatia da população em idade ativa que não é integralmente aproveitada pela estrutura econômica, apesar de manifestar o desejo de ampliar sua jornada laboral.
De acordo com a explicação do analista responsável pela pesquisa do IBGE, William Kratochwill, esse montante global de trabalhadores subutilizados é composto pela soma de três segmentos específicos:
Desocupados: cidadãos que realizaram buscas por postos de trabalho nos 30 dias que antecederam a coleta do instituto;
Subocupados por insuficiência de horas: profissionais que estão na ativa e disponíveis para ampliar a jornada, mas não conseguem preencher a carga cheia de 40 horas por semana;
Força de trabalho potencial: grupo que reúne indivíduos classificados como desalentados e não desalentados.
Os desalentados correspondem àqueles que interromperam a procura por emprego por acreditarem que não obteriam sucesso devido a barreiras como a escassez de vagas em sua área geográfica, critérios de idade (jovens ou idosos) ou falta de postos compatíveis com suas competências técnicas. Já os não desalentados compreendem aqueles que têm o desejo de trabalhar e estão disponíveis, mas não efetuaram buscas, ou que realizaram a busca porém enfrentaram algum impedimento para iniciar as atividades de imediato.
Trajetória do indicador e a retração do estoque de trabalhadores
No trimestre encerrado em maio, o contingente totalizado de pessoas na condição de subutilizadas somou 15,1 milhões de indivíduos. O resultado aponta para um encolhimento de 5,7% em relação ao trimestre imediatamente anterior, o que equivale à saída de 920 mil pessoas desse grupo, momento em que o índice figurava em 14,1%.
Na comparação com o mesmo período de três meses encerrado em maio de 2025, época em que a taxa marcava 14,9%, o recuo foi de 1,9 milhão de pessoas deixando essa classificação. O especialista do IBGE detalha que essa movimentação sinaliza que o estoque de contingência de trabalhadores aptos a serem absorvidos pelas empresas está operando em níveis cada vez mais estreitos.
Para efeito de comparação histórica, o teto máximo desse indicador ocorreu no trimestre finalizado em agosto de 2020, quando atingiu 30,7% em decorrência dos impactos econômicos diretos da pandemia da covid-19. Antes desse evento de saúde global, o pior momento verificado na série havia sido em maio de 2019, ocasião em que a taxa tocou os 25%, afetando um universo de 28,4 milhões de brasileiros.
Escassez de mão de obra e os reflexos no ambiente corporativo
Kratochwill pondera que, embora a subutilização não possua a mesma visibilidade popular que a taxa de desemprego padrão, o acompanhamento dessa métrica permite diagnosticar com maior precisão o nível de aquecimento da economia. O analista pontua que a dinâmica atual mostra que o mercado de capitais e serviços está operando próximo ao limite de absorção da mão de obra disponível.
A consolidação desse cenário tende a reconfigurar as relações entre empregadores e empregados. Com a redução da oferta de profissionais disponíveis no mercado, a tendência natural aponta para uma pressão de alta no valor dos salários e para a necessidade de as empresas estruturarem ofertas e condições de trabalho mais atrativas para conseguir captar e reter profissionais. Com informações da Agência Brasil

