Pecuária sustentável: consórcio de pastagens e lavoura aumenta peso do gado e reduz metano
A ciência brasileira acaba de reafirmar que é possível produzir carne de forma eficiente e, ao mesmo tempo, combater o aquecimento global. Um estudo conduzido pela Embrapa Cerrados, em colaboração com a Universidade de Brasília (UnB), comprovou que a adoção de sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e o consórcio de gramíneas com leguminosas elevam significativamente o ganho de peso dos bovinos, enquanto reduzem drasticamente a emissão de metano entérico e aumentam o estoque de carbono no solo.
Os dados, coletados ao longo de 2024 no experimento de ILP mais antigo do país, mostram que a intensificação inteligente do pasto é a chave para a descarbonização do setor. O trabalho recebeu menção honrosa em um simpósio internacional da USP, destacando-se como uma estratégia ecológica vital para a mitigação climática.
Desempenho animal e balanço de carbono
A pesquisa comparou três modelos produtivos para entender como o manejo influencia a produtividade e o meio ambiente. O sistema de referência, uma pastagem comum de capim Piatã, registrou um ganho de peso médio diário de 0,44 kg por animal. Já no sistema de ILP com capim Zuri, esse ganho saltou para 0,76 kg — um aumento expressivo de produtividade.
No que diz respeito ao impacto ambiental, os números são ainda mais reveladores:
Emissão de metano: Enquanto a pastagem solteira emitiu 450 g de metano por quilo de ganho de peso, o sistema integrado (ILP) reduziu esse índice para apenas 224 g.
Estoque de carbono: O consórcio de capim com a leguminosa feijão-guandu conseguiu armazenar 83,17 toneladas de carbono por hectare na camada superficial do solo, superando em mais de 20 toneladas o sistema convencional.
O papel das leguminosas na descarbonização
A inclusão de leguminosas, como o feijão-guandu, funciona como um motor biológico para o sistema. Essas plantas aumentam o valor nutricional da forragem disponível para o gado e melhoram a qualidade da terra ao fixar nitrogênio de forma orgânica. Esse processo beneficia a gramínea associada e potencializa o acúmulo de matéria orgânica no solo.
De acordo com os pesquisadores da Embrapa, essa tecnologia transforma as forrageiras em “plantas de serviço”, que atuam tanto na alimentação animal quanto na proteção e enriquecimento das áreas agrícolas. Além do metano, estudos anteriores na mesma área já indicavam que sistemas integrados conseguem reduzir as emissões de óxido nitroso em até 59%, melhorando o balanço total de gases de efeito estufa.
Protagonismo brasileiro no cenário global
O debate sobre a emissão de metano — que possui um potencial de aquecimento 27 vezes maior que o CO₂ — esteve no centro das discussões da COP30, em Belém. Como o Brasil possui a maior parte de sua produção bovina em regime de pasto, a intensificação tecnológica surge como o principal caminho para cumprir metas climáticas sem reduzir a produção de alimentos.
A Embrapa já disponibiliza orientações técnicas para produtores interessados em adotar o consórcio de guandu-anão com braquiária em sistema de plantio direto. Para os especialistas, o sucesso do experimento prova que a pecuária brasileira pode ser, simultaneamente, altamente rentável e uma aliada da conservação ambiental, liderando a transição para uma economia de baixo carbono. Com informações da Embrapa01


