Câncer: especialistas alertam para riscos de melanoma fora da pele

Estar atento a sinais fora da pele é fundamental para o diagnóstico precoce e combate a essa forma agressiva da doença

O melanoma nem sempre está associado à pele, conforme esclarece a Fundação do Câncer. Desenvolvido a partir de células produtoras de melanina conhecidas como melanócitos, esse tumor maligno também pode acometer estruturas extracutâneas, a exemplo do globo ocular, mucosas localizadas na cavidade oral e órgãos internos pertencentes aos sistemas digestório e genital.

Trata-se de uma neoplasia menos comum, mas que apresenta características de maior agressividade e letalidade devido à elevada probabilidade de gerar metástase e atingir tecidos e órgãos vizinhos. A 12ª edição do boletim Análises e Tendências em Câncer, divulgada no mês de setembro pela instituição sob o título Melanoma: nem sempre na pele, enfatiza que o conhecimento aprofundado sobre o problema constitui o primeiro passo para o enfrentamento da enfermidade. Conforme destaca o documento, o controle e a prevenção exigem diagnóstico precoce, planejamento adequado dos serviços de saúde e a formulação de diretrizes públicas salvadoras. Os registros epidemiológicos baseiam-se na plataforma info.oncollect, que centraliza dados hospitalares de oncologia.

Estratégias de enfrentamento e tratamento
O médico consultor da Fundação do Câncer e coordenador da pesquisa, Alfredo Scaff, aponta que o combate ao melanoma de pele e extrapele demanda prevenção, diagnóstico ágil, qualificação dos registros, acesso tempestivo terapêutico e forte articulação entre a dermatologia, a oftalmologia, a oncologia e os demais ramos médicos. Segundo ele, o diagnóstico precoce viabiliza a cura da doença.

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o protocolo padrão consiste na intervenção cirúrgica da lesão primária acompanhada da remoção dos linfonodos acometidos. Os registros estatísticos brasileiros colhidos entre 2014 e 2023 mostram que a cirurgia figurou como a principal abordagem inicial para o melanoma cutâneo em todas as regiões, respondendo por 84,7% dos procedimentos. A Região Sudeste liderou o indicador com 89,6%, enquanto a Região Norte registrou o menor percentual, com 64,4%. No quesito deslocamento, a maior parte dos pacientes buscou atendimento em sua própria localidade de residência, com exceção da Região Centro-Oeste, que concentrou o maior índice de deslocamento para assistência especializada, alcançando 20,2%.

Avanços em imunoterapia e barreiras financeiras
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta a quimioterapia como método amplamente adotado, lembrando que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou em 2016 o uso de imunoterápicos da classe anti-PD-1 — nivolumabe e pembrolizumabe —, além da liberação mais recente do tebentafuspe para casos de melanoma ocular metastático ou inoperável. Em 2020, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) viabilizou a primeira imunoterapia pública para o melanoma metastático com agentes anti-PD-1.

Alfredo Scaff ressalta que essas tecnologias elevaram a resposta clínica de menos de 10% na quimioterapia para até 70% na imunoterapia. Contudo, o coordenador de Assistência do Inca, Gélcio Mendes, pondera que as evidências do uso de imunoterápicos em melanomas extracutâneos ainda são escassas. Mendes acrescenta que a incorporação de inovações tecnológicas pondera critérios de eficácia, efetividade, custo-benefício e capacidade de financiamento institucional. O alto custo financeiro permanece como um entrave para o acesso célere no SUS, desafio que o Ministério da Saúde busca mitigar por meio da negociação centralizada de compras associada à política industrial do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), além de novas normativas em tramitação na Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), embora os fluxos práticos de repasse às unidades especializadas Unacons e Cacons ainda estejam em fase de pactuação entre gestores.

Panorama epidemiológico do melanoma extrapele
O levantamento epidemiológico com 42.255 casos aponta que 92,2% corresponderam a melanomas cutâneos, 5,7% a oculares e 2,5% a de mucosa. No intervalo de 1990 a 2021, somaram-se 1.324 novos diagnósticos de melanoma extrapele, sendo 523 em homens e 801 em mulheres. O olho destacou-se como a principal localização primária, concentrando 75% dos episódios extracutâneos, seguido pelos órgãos genitais (12,8%) e pelo sistema digestório (8,2%).

Entre os 993 casos de melanoma ocular analisados, 447 ocorreram em homens e 546 em mulheres. A Fundação do Câncer alerta que essa variação ocular pode transcorrer de forma assintomática nas etapas iniciais, sendo detectada apenas em consultas de rotina. Manifestações como visão embaçada, flashes luminosos, manchas e perda de acuidade visual são inespecíficas, reforçando a urgência da detecção precoce.

Análise do melanoma de pele e mortalidade
A radiação ultravioleta (UV) consolida-se como o principal fator de risco para o câncer de pele, incidindo com maior intensidade em indivíduos de pele clara. Embora represente o tipo mais frequente de neoplasia maligna no país, o melanoma cutâneo engloba apenas 4% dos tumores do órgão, destacando-se pela agressividade. O boletim registrou 30.614 novos casos de melanoma de pele entre 1990 e 2021, com predominância feminina de 51,3% (15.714 ocorrências) frente a 48,7% em homens (14,9 mil casos). As regiões anatômicas mais afetadas foram o tronco (22,4%), os membros inferiores (19,1%) e os membros superiores (13,8%), sendo os homens mais diagnosticados na orelha, couro cabeludo, pescoço e tronco, e as mulheres na face e nos membros.

No tocante à mortalidade, o Inca aponta 2.047 óbitos por melanoma de pele em 2023, sendo 1.176 entre homens e 871 entre mulheres. A taxa média quinquenal de 2020 a 2024 registrou seis mortes por 1 milhão de habitantes no Brasil. O Norte apresentou menor incidência aliada a maior letalidade devido ao diagnóstico tardio, enquanto o Sul liderou as taxas de incidência com 44,40 casos por 1 milhão — patamar superior ao dobro da média nacional de 19,20. As projeções do Inca para o triênio de 2026 a 2028 estimam 9.360 novos casos da doença no país para o ano atual, com risco predominante no público masculino de 23,8 casos por 1 milhão, ante 17,3 por 1 milhão entre as mulheres. Com informações da Agência Brasil.

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