Ensino superior vive expansão sem precedentes com mais de 260 milhões de alunos no mundo
O acesso ao conhecimento acadêmico deu um salto histórico nas últimas duas décadas. De acordo com o primeiro relatório global sobre tendências do ensino superior da Unesco, divulgado nesta semana em Paris, o volume de estudantes matriculados em universidades e faculdades pelo planeta mais que dobrou desde a virada do milênio. Se no ano 2000 o mundo contabilizava 100 milhões de universitários, em 2024 esse contingente atingiu a marca de 269 milhões.
Atualmente, o ingresso no nível superior já abrange 43% da população mundial que está na faixa etária entre 18 e 24 anos. Para o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, esse crescimento reflete uma demanda urgente por sociedades mais sustentáveis, embora o avanço ainda esbarre em desigualdades geográficas e financeiras.
Abismo regional e o peso das instituições privadas
Apesar do crescimento absoluto, o relatório destaca disparidades profundas entre os continentes. Na Europa Ocidental e na América Norte, 80% dos jovens acessam o ensino superior. Na América Latina e no Caribe, esse índice é de 59%. O cenário mais crítico é observado na África Subsaariana, onde apenas 9% dos jovens conseguem ingressar na universidade.
Outro ponto de atenção é a natureza das instituições. Em âmbito global, um terço das matrículas ocorre na rede privada. Contudo, em países como o Brasil, Japão, Coreia do Sul e Chile, a realidade é muito mais acentuada: quatro em cada cinco estudantes frequentam instituições particulares. O estudo aponta que apenas um em cada três países do mundo garante, por lei, o ensino público superior totalmente gratuito.
Mulheres conquistam espaço mas liderança acadêmica ainda é masculina
Pela primeira vez na história, as mulheres superam os homens nos bancos universitários em escala global. Em 2024, a proporção é de 114 mulheres matriculadas para cada 100 homens. A paridade de gênero foi alcançada em quase todas as regiões, com progressos notáveis na Ásia Central e no Sul da Ásia, que saíram de uma baixa representatividade feminina no ano 2000 para o equilíbrio atual.
Entretanto, o topo da pirâmide acadêmica ainda é restrito. As mulheres continuam sendo minoria em cursos de doutorado e ocupam apenas 25% dos cargos de alta liderança em universidades, revelando que a inclusão na base ainda não se traduziu em igualdade de oportunidades nas carreiras de comando.
Mobilidade internacional e o fenômeno dos destinos regionais
O desejo de estudar fora do país de origem triplicou, alcançando 7,3 milhões de alunos em 2024. Embora o eixo formado por Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Austrália, Canadá e Rússia ainda receba metade desses estudantes, novos polos estão emergindo com força. Turquia e Emirados Árabes Unidos viram sua popularidade crescer cinco vezes na última década, rivalizando agora com destinos tradicionais como a França.
O relatório identifica uma tendência de “regionalização”: os estudantes estão preferindo países vizinhos. Na América Latina, a Argentina consolidou-se como o principal destino para alunos da própria região, enquanto estudantes árabes têm trocado o Ocidente por países do Golfo e pela Jordânia.
Desafios da era digital e inclusão de refugiados
O financiamento e a qualidade do ensino continuam sendo gargalos. Em média, os governos destinam apenas 0,8% do PIB mundial para o setor. Além disso, a tecnologia impõe novos desafios: embora a inteligência artificial esteja transformando as salas de aula, apenas uma em cada cinco universidades possuía uma política formal sobre o uso de IA em 2025.
A Unesco também destacou a situação dos refugiados. Apesar do aumento de matrículas desse grupo, o acesso ao ensino superior para pessoas deslocadas ainda é baixo (9% em 2025). Para enfrentar isso, a organização implementa o “Passaporte de Qualificações”, ferramenta que permite o reconhecimento de diplomas mesmo quando documentos originais foram perdidos em conflitos, facilitando a integração desses estudantes no mercado de trabalho e na vida acadêmica global. Com informações da Agência Brasil


