Gestantes em risco por resistência às vacinas contra gripe e covid

O acompanhamento pré-natal completo e a atualização da caderneta de vacinação são passos decisivos para garantir a saúde das mães e dos recém-nascidos. Histórias como a da moradora da capital fluminense Nataly Saldanha, de 27 anos e gestante de 39 semanas da pequena Noely, exemplificam o compromisso com a imunização. Da mesma forma, a analista de marketing Raissa Silva de Oliveira, grávida de 34 semanas do pequeno Rafael, mantém suas doses em dia por confiar na ciência e seguir as orientações médicas. Contudo, os indicadores nacionais revelam que muitas mulheres no país não chegam ao momento do parto devidamente protegidas.

Estatísticas e dados da cobertura
Balanços do Ministério da Saúde indicam um cenário de alerta em todo o país. Durante o ano de 2025, apenas 55% das gestantes tomaram a vacina contra a covid-19, enquanto 63% receberam a dose contra a influenza (considerando dados das regiões Centro-Oeste, Sudeste, Sul e Nordeste). Registros preliminares deste ano apontam avanço na cobertura da gripe, atingindo 76%, mas o índice contra a covid-19 permanece estagnado em 55%. A meta estipulada pelo governo federal para ambos os imunizantes é de 90%.

A hesitação na busca pelas vacinas tem gerado consequências graves. Levantamento efetuado pelo Ministério da Saúde a pedido da Agência Brasil indica que, entre 2023 e o início de agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes ou puérperas desenvolveram Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) decorrente do vírus Influenza, resultando em 25 mortes, das quais sete ocorreram este ano.

No mesmo intervalo, a covid-19 provocou 205 casos graves e 21 óbitos no grupo. Em termos comparativos, durante o período ápice da pandemia (2020 a 2022), foram computadas 3.547 ocorrências graves e 811 mortes entre grávidas e puérperas.

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Flávia Bravo, avalia que o quadro atual decorre da acomodação da população em relação à gripe e da disseminação de informações falsas sobre a covid-19. A especialista esclarece que os imunizantes utilizam tecnologias seguras e consolidadas que foram aprimoradas rapidamente graças a investimentos mundiais.

Garantia de saúde para a mãe e o feto
Estudos conduzidos por cientistas brasileiros comprovaram que a introdução das vacinas reduziu os casos mensais de SRAG em grávidas para um terço dos níveis anteriores, além de diminuir a mortalidade em quase cinco vezes. Apesar dessa evolução, o coronavírus e o vírus da gripe respondem juntos por quase 30% das internações graves por SRAG em gestantes neste ano, representando mais de metade dos óbitos registrados no segmento.

A ginecologista Giuliane Lajos, representante da Comissão Nacional Especializada em Vacinas da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), reforça que o sistema imunológico da mulher sofre alterações naturais durante a gestação para evitar a rejeição do feto. Associada à diminuição do espaço pulmonar com o avanço da gravidez, essa condição eleva a vulnerabilidade a infecções graves. Pesquisa realizada com 1,2 milhão de gestantes no mundo confirmou que a vacinação contra a covid-19 reduz riscos de prematuridade, morte fetal e anomalias congênitas.

Transferência de anticorpos para o recém-nascido
A imunização materna garante ainda a proteção do bebê após o nascimento, período em que ele ainda não tem idade para receber determinados imunizantes. Como as vacinas contra a gripe e a covid-19 são indicadas apenas a partir dos 6 meses de vida, o recém-nascido depende da transferência de anticorpos através da placenta. A médica Flávia Bravo ressalta que ensaios clínicos confirmam uma redução de 70% nos casos de gripe nos primeiros meses dos bebês cujas mães se vacinaram.

No entanto, a falta de proteção infantil preocupa. Somente este ano, até 19 de setembro, o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe registrou quase 4 mil casos de SRAG por influenza em menores de 2 anos, com 55 mortes. Já a covid-19 gerou 808 quadros graves e 18 óbitos na mesma faixa etária em 2026. Desde 2023, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o fim da emergência internacional, 9.725 crianças menores de 2 anos tiveram casos graves de covid-19, resultando em 223 óbitos. As vacinas de RNA mensageiro e de gripe demonstraram elevada eficácia na prevenção de quadros fatais.

Resultados positivos em outros imunizantes
O calendário vacinal oferecido pelo SUS para gestantes inclui ainda doses contra hepatite B, dT, dTpa, VSR e, em casos específicos de risco regional, febre amarela. A estratégia contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), iniciada no ano passado, já vacinou 1,7 milhão de grávidas (86% do público). A medida reduziu os casos graves de infecção em bebês até 6 meses para 6.674 no primeiro semestre de 2026, número inferior à metade dos 14.061 registros ocorridos no mesmo período de 2025.

Outro histórico de sucesso refere-se à vacina dTpa. Administrada para conter surtos de coqueluche em recém-nascidos, a cobertura do imunizante em gestantes subiu de 34% em 2016 para 94% em 2025, registrando 88% em dados preliminares deste ano. As infecções por coqueluche caíram de 7.747 em 2024 para 2.744 em 2025 e 401 até setembro de 2026. Das 11 mortes registradas em 2026, nove foram de bebês com menos de 1 ano.

Atuação das equipes e unidades de saúde
Para ampliar a cobertura, profissionais da rede básica de saúde têm adotado estratégias de busca ativa e conscientização. Na Clínica da Família Ricardo Lucarelli, no centro do Rio de Janeiro, a médica Catarina Jatobá de Souza explica que a verificação da carteira ocorre na consulta inicial e as doses pendentes são aplicadas no mesmo dia. Agentes comunitários realizam visitas mensais e monitoram o cumprimento do calendário vacinal, enquanto grupos de apoio e atividades comunitárias servem de espaço para tirar dúvidas e incentivar a proteção familiar. Com informações da Agência Brasil.

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