Galinhas caipiras poedeiras em pequenas propriedades é negócio rentável e com mercado promissor

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O ovo de galinha é um alimento nutritivo, relativamente barato e que está ganhando cada vez mais espaço no nosso prato. Tanto que o Brasil alcançou, pela primeira vez, a média mundial de consumo, batendo recorde ano a ano. Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), em 2019 foi alcançada a marca histórica de 230 ovos por habitante/ano. É quase o dobro do nosso consumo há 10 anos, destaca a médica veterinária Cheila Rúbia Leite Massiere Duarte, responsável pela Casa da Agricultura do município de Laranjal Paulista. “Em 2018, cada brasileiro consumiu, em média, 212 ovos durante o ano, 20 a mais do que em 2017. O motivo para essa crescente ascensão deve-se, em parte, às pesquisas, que derrubaram a imagem do ovo como alimento prejudicial à saúde e, somado a isso, temos o ovo como alternativa ao consumo de carne” explica Cheila.

O trabalho como extensionista da Secretaria de Agricultura e Abastecimento é recente, mas a experiência, que foi acumulada em 15 anos de profissão, já a levou por vários caminhos, em Minas Gerais, no Nordeste, até chegar à Laranjal Paulista, município da área de atuação da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) Regional Botucatu. O desejo de fazer algo diferente foi atendido com a demanda que chegou das produtoras e sócias Lucília de Faria Gomes e Maria Helena Brisotti, que queriam criar galinhas caipiras poedeiras. Hoje, o grupo já conta com 10 participantes, alguns já deram início e outros estão a caminho de montar suas granjas na região, devido ao suporte que vem sendo dado, mesmo durante a pandemia, pela médica veterinária.

A extensionista conta que o trabalho com avicultura em Laranjal Paulista nasceu após um diagnóstico e estudo sobre a área animal da região. Em uma conversa com produtores locais, especialmente com a produtora Lucília de Faria Gomes, o projeto foi tomando corpo. Lucília é olericultora certificada orgânica e também importante figura na alavancagem de projetos no município. Em uma das visitas, a conversa foi sobre o seu sistema de produção de hortaliças e sobre a dificuldade de ampliar a produção pelas limitações com mão de obra contratada e custos. “Foi então que perguntei sobre sua visão sobre a área animal e se já havia pensado em alguma atividade diferencial que combinasse com seu sistema. Mapeando atividades que poderiam ser incrementadas e me baseando em demandas de mercado e tendências, vimos na avicultura de postura em sistema caipira uma excelente oportunidade para o produtor familiar diversificar sua atividade sem grandes investimentos e sem demanda de extensas áreas de terra. A partir de então, passamos a amadurecer a ideia de um trabalho com avicultura diferenciada e foi montado um plano de treinamentos”, relembra Cheila.

Hoje, a maior parte dos ovos comercializados no Brasil é oriunda de galinhas poedeiras criadas em sistema de confinamento intensivo, modelo no qual as aves são alojadas em gaiolas durante toda a sua vida produtiva. Na União Europeia, e em uma parte dos Estados Unidos, já foram aprovadas regulamentações que dispensam esses sistemas de alojamento, havendo uma tendência de eliminar gradativamente o uso e a venda de ovos produzidos em sistemas intensivos como esses.

Essa tendência está influenciando os consumidores no Brasil, que estão mais preocupados com a origem do alimento que consomem. “Com isso, já há um nicho disposto a pagar mais por um produto diferenciado, produzido em sistemas ambientalmente sustentáveis e que valorizem o bem-estar animal. Com a pandemia, essa tendência parece ter aflorado; hoje, há maior demanda por alimentos saudáveis, produzidos de forma orgânica ou simplesmente natural, e o bem-estar animal faz parte dessa procura”, avalia a médica veterinária.

O primeiro encontro para tratar do tema foi realizado em maio de 2019 e foi convidada a dar uma palestra a bióloga Daniela Sarti da Rocha sobre o tema “Produção de ovos em sistemas caipira e orgânico”. Foram abordados: origem das galinhas; domesticação; biologia e comportamento; modelos avícolas caipira e orgânico; bem-estar animal; instalações; recepção de pintainha; manejo alimentar; manejo sanitário; enriquecimento ambiental; e manejo de ovos. Além da parte teórica, os participantes tiveram acesso a uma prática, com estudo de caso em propriedade rural dos participantes.

Após essa capacitação, os produtores puderam fazer ajustes nos sistemas já existentes e amadurecer o contato com outros criadores da região, formando, inclusive, um grupo específico sobre a criação de galinhas em sistema caipira. “O grupo discute temas e tira dúvidas via WhatsApp, com isso um projeto sólido foi criando roupagem e identidade”, explica Cheila. Logo em seguida, foi feito um segundo módulo com enfoque especial em sanidade e formalização da atividade com a participação das médicas veterinárias Talita Fonseca, da CDRS, e Gabriela Tomazela, da Associação Paulista de Avicultura (APA), que abordaram pontos relacionados à sanidade avícola e ao registro de granja. O treinamento também contou as participações fundamentais para iniciar qualquer atividade na área animal, dos médicos veterinários César Kruger, da Coordenadoria de Defesa Agropecuária, e Paulo Goldoni, responsável pelo Serviço de Inspeção Municipal (SIM) de Laranjal Paulista, que contribuíram com informações sobre o funcionamento de um entreposto de ovos.

Semelhante ao que acontece na avicultura convencional, os produtores têm empregado diversos controles e procedimentos de forma a ter uma abordagem mais profissional possível. Cheila explica que é feito o controle do consumo diário de ração, a curva de postura, a observação criteriosa do comportamento das aves, higienização adequada de galpão e ninhos, além de fornecimento de alimentação balanceada e ajustes do ambiente quando necessário. “O grande diferencial desse sistema é a valorização do bem-estar animal e o respeito à fisiologia das aves, pois essas têm oportunidade de ciscar, tomar banho de sol, acessar forragens e expressar seu comportamento. Outro ponto que merece destaque é o encurtamento de cadeias, com entrega de um produto de qualidade, fresco e produzido localmente”, defende a extensionista, afirmando ser ideal para pequenas propriedades, não se tratando de uma concorrência com as grandes granjas convencionais, mas um mercado que se abre e uma alternativa oferecida sob demanda de consumidores específicos. “Acreditamos ser esse o caminho para o pequeno produtor ajustar sua renda, se fixar no meio rural e manter sua qualidade de vida, porque para quem vive exclusivamente da atividade rural, é preciso planejar adequadamente seu negócio e é preciso inovar sempre”.

Motivadas e seguras, produtoras se tornaram referência
Lucília Maria de Faria Gomes e Maria Helena Brisotti se conheceram há pouco mais de dois anos, tornaram-se amigas e sócias no negócio. Com lugar já garantido na feira municipal e em mercados locais, onde comercializam as olerícolas produzidas em sistema orgânico, com certificação pelo IBD (Instituto Biodinâmico), a inserção dos ovos caipiras Marylu, em plena pandemia, em março deste ano, tem sido um sucesso.

“Em pouco tempo, cerca de quatro meses, estamos construindo um bom negócio entre galinhas e verduras. A Lucília já trabalhava com a olericultura e eu cheguei para dar um ânimo. Tudo se transformou muito rápido, com as “Marylu” já somos um sucesso de vendas de ovos”, diz animada Maria Helena. “Os planos para o futuro incluem aumentar o aviário e chegar a mil galinhas poedeiras. Na olericultura dependemos muito de condições climáticas, que são muito incertas, procurávamos por uma atividade que pudesse ser feita pelo produtor familiar e que gerasse uma renda mais constante.

Foi em busca de alternativas que elas procuraram a Casa da Agricultura e, conversando com a médica veterinária responsável pela unidade, resolveram apostar na avicultura. “Normalmente, quem tem aviários rentáveis são só os grandes produtores, com a tecnologia de produção de ovos em escala adaptada para eles, portanto, o apoio e a orientação técnica que recebemos da médica veterinária Cheila foi fundamental para que montássemos esse projeto-piloto”, relembra Lucília.

Para Cheila, também foi um desafio, mas que faz parte do dia a dia do extensionista. “Na área animal trabalhamos muito com pecuária leiteira. Fazer um projeto diferenciado ‒ testando desde a instalação, alimentação, postura e todos os detalhes que envolvem a atividade ‒ foi muito estimulante para mim e para o grupo. Hoje, já temos um aprendizado conjunto bastante eficiente para passar a tecnologia e os ajustes a outros produtores interessados em iniciar na atividade, sejam daqui do município ou de outras regiões”, afirma a extensionista, contando ser possível iniciar na atividade com menos galinhas. O produtor Jarbas de Oliveira, que também faz parte do grupo, começou com apenas 50 galinhas poedeiras, para ir aprendendo e, a partir disso, poder crescer com segurança.

“Nossa missão é produzir ovos da melhor qualidade e oferecer um alimento saudável para as pessoas. Para isso, as galinhas precisam de bem-estar; portanto, no nosso sítio elas são criadas livres, têm um pasto grande só para elas, ciscam, tomam sol e parecem se divertir! E nós aprendemos a manejá-las para obter o melhor resultado. A alimentação é uma ração balanceada, complementada com couve e vegetais orgânicos da horta. Com isso, conseguimos uma postura constante e uma renda estável”, finaliza Lucília.

Com certeza as sócias são inspiradas todo dia pelo próprio nome da propriedade, “Sítio Água do Segredo”, e o segredo elas contam: é investir em treinamento, estudar o mercado, procurar assistência técnica e contar com o apoio da extensão rural da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Com informações da Assessoria de Comunicação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.

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