Produtora assume fazenda da família em MG e vira referência em sustentabilidade e uso de tecnologias

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O ano de 2003 foi marcante para a produtora Conceição Aparecida Gomes. O falecimento do pai causou uma grande transformação em sua vida. Além de lidar com a dor da perda, ela teve que assumir as atividades desenvolvidas por ele em uma fazenda de gado leiteiro no município de Abaeté, região Central de Minas Gerais. Tudo isso, sem nenhuma experiência no ramo.

“Minha vida deu uma virada. Eu trabalhava no comércio, em outra cidade. No meio daquela sensação de perda, eu precisava ajudar a minha mãe e minha irmã que já moravam na fazenda. Eu não sabia nada, mas comecei a assumir as responsabilidades”, conta.

Conceição Aparecida lembra que na época, com 32 anos de idade, contou com a ajuda de um antigo funcionário da fazenda, de produtores vizinhos e da Emater-MG. No início, sempre ao lado da irmã e da mãe, ela mexeu com a parte burocrática. Mas não demorou muito e ela teve também que aprender a lidar com o gado, com a capineira e lavouras de milho.

“Tudo que eu faço, gosto de fazer bem feito. Eu tinha que aprender para poder acompanhar as coisas. Primeiro aprendi a tirar leite na mão. E nas lavouras, como eu não sabia nada ainda, comecei a plantar em parceria com meeiros”, lembra. Não demorou muito para as coisas progredirem. Ela deu início também ao plantio de cana-de-açúcar para alimentação do gado e comprou ordenhadeiras mecânicas.

Para o técnico da Emater-MG do município, Fernando César Couto, a história da Conceição Aparecida é um caso exemplar de sucessão familiar no campo. “Temos visto os jovens abandonarem o campo e irem para a cidade. Mas na família da Conceição, a realidade foi diferente. Temos feitos vários projetos no local. Ela é uma pessoa receptiva ao uso de novas tecnologias e que quebrou vários paradigmas, mostrando a força da mulher rural”, comenta.

Conceição Aparecida lembra que esta força destacada pelo técnico da Emater-MG chegou a ser muito questionada no começo da empreitada. “Por ser mulher, ninguém acredita em você no início. E, quando você conquista algo, ninguém reconhece que você lutou. Além disso, tive que quebrar alguns paradigmas. Eu e minha mãe, por exemplo, tínhamos ideias diferentes do negócio. E era preciso chegar num consenso”, afirma a produtora.

Rebanho
Atualmente, na fazenda de 69 hectares, são produzidos cerca de 350 litros por dia, quantidade que varia de acordo com a época do ano. A lida diária da Conceição nos currais e nas lavouras é dividida com a irmã e o cunhado, num sistema tipicamente familiar. Quase todo o rebanho é formado por vacas da raça gir leiteiro. A produção é entregue na Cooperativa dos Produtores Rurais da Região de São Simão (Coopass).

Para alimentar os animais na seca, a Conceição começou também a plantar sorgo para a silagem, em uma área de três hectares. E ela demonstra um orgulho quando fala dos animais da fazenda. “O gado foi quase todo criado aqui em casa, nasceu aqui na fazenda. Isso é muito gratificante na hora do manejo das vacas, a facilidade de fazer o trabalho”.

Meio ambiente
A Fazenda São Simão de Baixo também vem se destacando pela preocupação com o meio ambiente e virou referência na região. De acordo com a Conceição, isso é uma herança herdada do pai, que iniciou um projeto de recuperação ambiental no município, junto com a Emater-MG e produtores vizinhos. “Meu pai tinha a visão de que alguma coisa precisava ser feita. No ano de 2000, foi lançado o projeto Renascer para a recuperação do córrego Vinhático, da bacia do rio São Francisco, que nasce na fazenda. Começou com a recuperação de mata ciliar, proteção de nascentes e as primeiras construções de barraginhas para reter a água da chuva e contribuir para a sua infiltração no solo”, lembra.

A produtora conta que as ações ambientais na propriedade ganharam força nos últimos anos, com a recuperação de pastagem, plantio em curvas de nível e construção de várias barraginhas, numa parceria da Emater-MG, prefeitura e associação dos produtores. Hoje são mais de 20 barraginhas que estão contribuindo para acabar com o problema da estiagem. O trabalho faz parte do programa de revitalização das sub-bacias hidrográficas do rio São Francisco.

“Em 2018 deu uma chuva muito forte. As barraginhas e os terraços ficaram todos cheios. Nunca tinha visto aquilo. No ano passado também aconteceu. Muito diferente do que ocorria antes, quando o córrego parava de correr e eu precisava buscar água fora para dar conta das atividades na fazenda. Agora não falta mais água”, afirma.

Tecnologias
Uma das últimas novidades implementadas na fazenda foi o uso do controle biológico de pragas, graças a uma parceria desenvolvida entre a produtora, Emater-MG, Embrapa, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a cooperativa Sicoob Credioeste. A experiência foi feita na lavoura de sorgo. Com isso, a propriedade se tornou uma unidade demonstrativa para que outros produtores da região possam conhecer o sistema. O controle biológico é feito com a reprodução e soltura de uma pequena vespa, que é uma predadora natural dos ovos da praga que ataca a lavoura. “O controle biológico usando um inseto para combater outro inseto é uma alternativa muito apropriada para o produtor. A grande vantagem da vespinha é que ela é muito específica, rapidamente encontra o ovo da praga, e não prejudica os outros insetos do ambiente. Isso é importante, pois não estamos colocando nada de anormal na natureza”, explica o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Ivan Cruz.

Hoje, quem vê toda a desenvoltura da Conceição ao tirar leite das vacas, cuidar das lavouras e falar das inovações colocadas em prática frequentemente na fazenda nem imagina toda a dedicação que foi necessária. Mas ela está sempre acreditando que as coisas podem ser ainda melhores e dá um conselho para outras mulheres que buscam o protagonismo no meio rural. “O desafio é grande. Tem que buscar conhecimento, parcerias e, principalmente, ter muita persistência e força de vontade”.

Campanha Mulheres Rurais
A Emater-MG aderiu à campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos. Trata-se de uma iniciativa conjunta e colaborativa de alcance internacional, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), para dar visibilidade ao poder transformador das mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes em um contexto de desigualdades estruturais e desafios sociais, econômicos e ambientais, agravado pelo impacto da pandemia de Covid-19.

Desde a terça-feira (22), Emater-MG divulga uma série de reportagens, além de vídeos, destacando o protagonismo da mulher rural de Minas Gerais, a superação de desafios, e também como o trabalho de assistência técnica e extensão rural contribui para o desenvolvimento das mulheres no campo.

No dia 15 de outubro, data da comemoração do Dia Internacional das Mulheres Rurais, o tema será tratado pela Emater-MG em uma live, no seu canal no Youtube. Para conferir as reportagens e vídeos sobre a campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos, basta acessar o site da Emater-MG. Com informações da Emater-MG

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