Avança pesquisa e transferência de tecnologia com café canéfora no Cerrado

A instalação, em 2020, de unidades de validação nas cidades de Unaí e Paracatu, no Noroeste mineiro; em Ipameri (GO) e no Distrito Federal estão subsidiando o desenvolvimento e a recomendação da primeira variedade clonal de café canéfora para produção em sistema irrigado no Cerrado do Brasil Central. Selecionada pela Embrapa, a variedade está em fase de registro e proteção no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

A pesquisa é conduzida pela Embrapa Cerrados e pela Embrapa Café (DF), que desde 2009 desenvolvem trabalhos que têm mostrado a potencialidade do café canéfora no sistema irrigado na região. Bastante cultivada no Espírito Santo, a espécie é normalmente utilizada em blends com o café arábica e na produção de cafés solúveis.

“Temos condições de mostrar ao agricultor da região o potencial do café canéfora não só pelo já conhecido rendimento, mas também pelas características químicas dos grãos, que dão à bebida um sabor singular e a possibilidade do uso em mercados de grãos finos”, afirma o pesquisador Renato Amábile, assessor da chefia-adjunta de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados.

Ele destaca que o comprometimento e a atuação da pesquisa da Embrapa com os produtores da região levaram à instalação das unidades de validação. “Essa iniciativa promove ativamente a cafeicultura regional, favorece decididamente o empreendedorismo dos cafeicultores e o desenvolvimento e fortalecimento da cultura no Cerrado”, relata.

Também da Embrapa Cerrados, o pesquisador Adriano Veiga acrescenta que os produtores do Distrito Federal, de Goiás e do noroeste de Minas Gerais vislumbraram nos cafés canéforas uma nova oportunidade de exploração em sistema irrigado e condições climáticas favoráveis à cultura. “A possibilidade de alcance de boas produtividades e renda ao produtor já é visível, atendendo a demandas crescentes do mercado na região”, observa.

No Distrito Federal, as unidades de validação estão localizadas na Embrapa Cerrados, em Planaltina, e na Universidade de Brasília (UnB). “A introdução de outros cafés como o canéfora na região é mais uma opção que se abre para o cafeicultor em função da produção dos blends, e mesmo das possibilidades de bebidas com aromas e sabores diversos”, aponta o professor Marcelo Fagioli, responsável pela unidade de validação na UnB.

Cooperativa aposta na produção
No Noroeste mineiro, região com tradição na produção do café arábica, a Cooperativa Agropecuária Unaí Ltda. (Capul) tem testado variedades clonais de café canéfora em pequenas áreas de cooperados para diversificar a produção nas propriedades, sobretudo nas pequenas e médias de base familiar.

Rafael Silva e Marlon Ferreira, engenheiros agrônomos da Capul, acreditam que o café canéfora veio para ficar na região devido à rusticidade, à tolerância às principais pragas que acometem o café arábica e ao expressivo volume de produção. “Trouxemos vários clones do Espírito Santo e fomos selecionando alguns materiais que se adaptaram melhor. Creio que o café canéfora é a cultura que vai se tornar muito frequente em qualquer propriedade”, aposta Silva.

Ele acrescenta que, em relação a outras culturas, como frutíferas, o manejo do café é vantajoso para o produtor quanto à mão de obra. “Há propriedades hoje em que a própria família toma conta dos cafezais e contrata mão de obra externa apenas para a colheita”, comenta.

Já Ferreira, que tem conduzido plantios de café canéfora na região de Buritis, ressalta a produtividade observada em relação ao arábica. “Ele tem sido bem aceito e é mais uma fonte de renda para os produtores. A Capul vem dando toda a assistência para ajudar o produtor a produzir mais e melhorar a aceitabilidade desse café, que está iniciando na nossa região”, diz.

O noroeste mineiro conta com duas unidades de validação com os clones que compõem a variedade clonal selecionada pela Embrapa, instaladas nas propriedades de Delvecchio Silva, em Unaí, e de Evanildo Domingues, em Paracatu, produtores cooperados da Capul.

Otimista com o futuro dos cafés canéfora na região, Silva está cultivando 8 ha de diferentes variedades de cafés. “Como estamos no segundo ano de experiência, conhecendo os materiais, a gente vê que o canéfora tem um futuro promissor. As áreas mais velhas estão apresentando um alto potencial produtivo e a gente enxerga um bom potencial na região”, observa.

Silva está confiante no potencial mercadológico para o café canéfora: “Pelo que conversamos com o pessoal no mercado, principalmente com torrefações na região, todos estão esperançosos, buscando justamente esse produto para fazer não só o blend, mas também o envase dele próprio para o comércio”.

Quanto aos clones da Embrapa, ele demonstra satisfação com o desempenho no campo até o momento. “Tanto é que tenho, com a mesma época de plantio, outros clones já comerciais, e eles se desenvolveram da mesma forma”, afirma.

Novidade em Goiás
Já em Ipameri, no sudeste goiano, a unidade de validação foi instalada no campus local da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e é conduzida pelo professor Roberli Guimarães. A região não tem tradição na cafeicultura, e o café canéfora surge como novidade. A UEG está testando variedades de café canéfora para verificar a adaptabilidade às condições do Cerrado daquela região.

“Estamos numa altitude acima de 800 m e sabemos que esse café se desenvolve em melhores condições a 500 m de altitude. Este ano, a cultura de outras espécies de café foi muito consumida por geadas. Então, é importante ter trabalhos com espécies como o canéfora para verificarmos como funciona a adaptação desses cafés no Cerrado goiano”, explica Guimarães. Com informações da Embrapa

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