Casos de Covid-19 podem aumentar na América Latina nas próximas semanas, prevê diretora da OMS

Mariângela Simão é diretora-geral assistente para Acesso a Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos da Organização Mundial da Saúde, OMS. Nesta conversa exclusiva com a ONU News, de Genebra, a também secretária-geral assistente das Nações Unidas aborda a situação do novo coronavírus em relação aos remédios e expectativas sobre Brasil e a América Latina.

Qual é o papel da OMS para que se chegue a uma vacina e em quanto tempo, da maneira mais rápida, ela poderia estar disponível?
Uma questão importante é notar que uma vacina não é desenvolvida de um dia para o outro. Que demora tempo para fazer os estudos necessários para avaliar, não só a eficácia, se a vacina funcionou ou não, mas também se ela é segura e se ela é estável. Se ela pode ser aplicada em diferentes condições para diferentes grupos etários e tudo mais. No momento, nós temos em torno de 20 ensaios clínicos, pesquisas em andamento para o desenvolvimento de vacinas. Existe uma iniciativa internacional, que é chamada de Cepe, e que está ajudando a financiar o desenvolvimento de uma vacina. A questão de tempo é claro que é um processo rápido. Quando você está testando qualquer produto novo, você tem que avaliar não apenas a sua eficácia, quer dizer se funciona nas diferentes populações, mas também a segurança e a estabilidade. Então, há várias questões que têm que ser bem resolvidas antes da vacina estar disponível. A expectativa é que demore pelo menos um ano para que a gente tenha uma vacina viável para ser utilizada em relação a este coronavírus, especificamente.

Chegou-se a falar que medicamentos antirretrovirais seriam eficientes no combate ao covid-19. Isto é verdade ou mito? Existem medicamentos que ajudam? Quantos kits de testagem a OMS ainda pretende enviar e para onde?
Sobre os medicamentos antirretrovirais no combate ao covid-19: Tem vários medicamentos antivirais sendo estudados. Existem aproximadamente 200 ensaios clínicos em andamento nesse período de tempo. Alguns dos medicamentos de combate ao Sida, ou HIV, eles vêm sendo utilizados nesses ensaios clínicos. Por exemplo o ritonavir, o darunavir, mas ainda não tem resultados se eles vão funcionar ou não. Existe também um outro medicamento novo que foi desenvolvido inicialmente para tratar pessoas com ebola e que acabou tendo outras opções de tratamento mais efetivas, e que também está com vários ensaios clínicos para avaliar sua eficácia. O que se fala agora é que várias drogas antigas estão sendo pesquisadas para um novo propósito. Também tem drogas para a malária, drogas bastante antigas, que também estão sendo estudadas nesse momento.

Então, há que aguardar os resultados desses estudos clínicos, mas até ao momento atual não tem nenhum estudo que mostre que este ou aquele medicamento são eficazes no combate à epidemia. Isso é importante dizer porque é importante que as medidas que a OMS tem propagado que muitos países já tomaram com relação às questões individuais de lavar as mãos, e quando possível usar o álcool, o contato com pessoas doentes, se você estiver doente ficar isolado, avisar o serviço de saúde, fazer o teste se for um caso suspeito, tudo isso vale porque ainda não existe um tratamento ou uma vacina eficaz comprovadamente.

Como a OMS pode ajudar países de baixa renda e qual é a preocupação com pacientes soropositivos e outras doenças?
Uma das questões que vêm sendo observadas, principalmente na análise dos dos casos da China, porque a China já fez o pico da epidemia e agora é o país que tem mais dados epidemiológicos sobre transmissão e sobre a gravidade da doença, demonstra que pessoas acima de 60 anos e pessoas que têm doenças concomitantes são de maior risco para a severidade da doença. Isso pode afetar pessoas com diabete, com hipertensão e com outras patologias, inclusive pessoas que sejam imunossuprimidos por qualquer razão, não apenas pelo HIV as por outras doenças também, e que elas devem ter um cuidado especial na relação do contato com outras pessoas. Para essas pessoas, há indicação de tentar haver menos contato possível com o público. Em situações de países com baixa prevalência, com baixo número de casos, isso é evitar aglomerações, manter o que se chama distância social – abraços, apertos de mão, beijos, deixar isso para ocasiões mais tarde. E para se manter mais cuidadoso nas suas relações interpessoais. Uma questão importante é que se você manifestar qualquer sintoma de febre alta e de tosse, que avise o sistema de saúde antes de procurar atendimento porque você já se deveria ser encaminhado para uma zona separada.
A senhora espera um pico na América Latina, principalmente Brasil, com a contaminação no próximo mês?
 Seguindo a observação do que vem acontecendo nos outros países e, principalmente na Europa agora que é o epicentro da epidemia junto com os Estados Unidos, o que pode se esperar é que haja um número grande, um número crescente de casos na América Latina nas próximas semanas com certeza. Aí é importante que os governos estejam atentos. A gente vem observando na mídia que os governos estão tomando várias medidas para diminuir o trânsito de pessoas, para diminuir as situações de risco e para orientar as pessoas que venham a desenvolver sintomas sobre o que fazer no caso de buscar um serviço de saúde. Com ONU News
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