Manter matas ciliares ajudam na redução de impactos na Amazônia

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Os resultados das pesquisas, conduzidas por pesquisadores da Embrapa e de universidades norte-americanas, ampliam o conhecimento sobre o tema e foram publicados no periódico científico Waters.

A conservação da floresta ripária (a mata ciliar) pode fazer diferença na mitigação dos impactos das mudanças no uso da terra em bacias hidrográficas de diferentes tamanhos na Amazônia brasileira. Foi o que comprovaram pesquisas realizadas nas bacias hidrográficas naquele bioma ao longo de 20 anos. Resumo dos resultados foi publicado no periódico científico internacional de acesso livre Water.

Os autores discutem os resultados de pesquisas em bacias onde se encontram pequenas propriedades rurais familiares e grandes fazendas. Em todas, foram analisados os chamados processos hidrobiogeoquímicos (veja quadro abaixo). Além disso, os pesquisadores encontraram evidências de que a floresta secundária (a capoeira) tem um importante papel tanto para mitigar esses impactos quanto para ajudar na conservação da qualidade da água e dos ecossistemas aquáticos.

Os cientistas fizeram uma revisão de dezenas de pesquisas publicadas em revistas científicas e teses acadêmicas, com o objetivo de congregar os principais resultados e discuti-los. Com isso, eles obtiveram um diagnóstico para a recomendação de alternativas no uso agrícola atualmente praticado na região. “Analisamos estudos realizados por diversos grupos de pesquisa do Brasil e de parceiros internacionais, que utilizaram metodologias científicas variadas”, conta o pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Ricardo Figueiredo, que participou do estudo.

O que são processos hidrobiogeoquímicos?
Quando a chuva cai, parte da água é retida pela vegetação e outra parte chega ao solo. No solo, a água infiltra e a parte que não é absorvida pelas raízes das plantas segue seu caminho pelos poros do solo em direção aos terrenos mais baixos, aumentando a umidade deles. Essa água também flui verticalmente até o chamado lençol freático, ambiente subterrâneo muito importante para suprir os rios na estiagem. Por outro lado, a água, em vez de infiltrar, pode seguir superficialmente, por escoamento lento ou enxurradas, até chegar ao leito do rio. E ocorre também a evaporação que, em taxas diferenciadas, promove o retorno da água para a atmosfera, e assim influencia o clima.

Dessa maneira, a água em seus diferentes caminhos interage, por meio de ações físicas e químicas, com os organismos vivos e os nutrientes que estão presentes na atmosfera, na vegetação, nos solos e nas rochas, resultando em fluxos de uma solução líquida constituída por elementos dissolvidos e sedimentos, a qual pode ser transportada até os rios.

Os processos hidrobiogeoquímicos nada mais são do que essas transformações na química da água que ocorrem no ambiente durante o ciclo hidrológico, envolvendo além da própria água (HIDRO), os sistemas biológicos (BIO) e o a ciclagem dos elementos químicos presentes na atmosfera, vegetação, solos e rochas (GEO).

Ele explica que a atividade agrícola costuma provocar impactos nos rios, cuja intensidade vai depender do manejo adotado. “Quando não se adotam técnicas de conservação de solo, manutenção da vegetação ripária (vegetação ao longo do curso d’água) e o uso racional de insumos, os impactos tendem a ser relevantes para a qualidade e o volume da água dos rios, assim como para o ecossistema aquático atingido”, alerta.

Em geral, de acordo com Figueiredo, um dos efeitos mais comuns é a entrada de sedimentos nos rios provocando assoreamento. O manejo inadequado das terras agrícolas também gera impactos associados, como a entrada de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, podendo provocar a eutrofização e, consequentemente, a queda de oxigênio e da qualidade da água.

Soluções
De acordo com o pesquisador, para contribuir com a saúde dos ecossistemas, poderiam ser adotados novos incentivos para a produção agropecuária sustentável, como os programas de pagamento por serviços ambientais, e também para a adoção de sistemas alternativos de produção, cujos benefícios já estão consolidados tanto no aspecto produtivo quanto de conservação ambiental.

As soluções agrícolas podem contribuir como parte de um conjunto de recomendações para políticas de gestão de territórios, que tenham como fim associar a contínua produção de alimentos com práticas de conservação das florestas e de recursos hídricos nas áreas de fronteira agrícola da Amazônia. Os cientistas defendem que sistemas sustentáveis podem ajudar na conservação da floresta e, ao mesmo tempo, atender às necessidades das populações que habitam as bacias hidrográficas do bioma.

Para as pequenas propriedades rurais, o uso do fogo como preparo do solo para o cultivo permanece como um problema e precisa ser enfrentado com programas de informação e esclarecimento. Já nas grandes propriedades, o maior desafio é a conversão da floresta em pastagens ou produção agrícola o que, por vezes, tem ocasionado um efeito adverso na qualidade das águas fluviais.

O estudo conclui que a expansão da agricultura na Amazônia brasileira é influenciada não apenas pelas demandas de pequenas propriedades rurais tradicionais, mas também por grandes produtores agropecuários, pois ambos promovem pressão considerável sobre a conservação das florestas remanescentes e das bacias hidrográficas.

“Apesar de os estudos nessas bacias terem aumentado bastante o entendimento sobre o tema em pauta, ainda existem lacunas importantes em nossa capacidade de fornecer recomendações adequadas para o gerenciamento ambiental nessas áreas e para as políticas públicas relacionadas”, admite o pesquisador da Embrapa. “Trata-se de uma revisão qualitativa e não quantitativa dos impactos e das soluções que se apresentam como sistemas de produção sustentáveis”, diz.

O cientista lembra que é conveniente observar o bioma ou a ecorregião para considerar ou não as conclusões dos estudos, pois, segundo ele, “certos impactos são potencializados ou mitigados de acordo com as condições de relevo, solo e clima, por exemplo”. As pesquisas continuam tanto na Amazônia como no restante do País.

“De fato, a agricultura também é beneficiada com a conservação ambiental nas bacias hidrográficas, uma vez que essas suprem a demanda hídrica para a irrigação, por exemplo. E, adicionalmente, se beneficia em aspectos não discutidos no âmbito desse trabalho publicado, como a regulação do regime local de chuvas e a manutenção da biodiversidade, que é um antídoto comprovado no combate a pragas e doenças”, enfatiza o pesquisador.

O artigo foi publicado no número especial “Tradeoffs among Food Production, Forests, and Water Resources in Tropical Agricultural Frontiers” do periódico científico Water. Os autores são Ricardo Figueiredo, da Embrapa Meio Ambiente; Anthony Cak, da City University of New York, USA; e Daniel Markewitz, da University of Georgia, USA.

Por que se preocupar com os rios?
Uma grande preocupação ambiental é a escassez de recursos hídricos. A qualidade da água dos rios, assim como seu volume disponível, são estratégicos para a qualidade de vida e o desenvolvimento das sociedades. Por isso, pesquisas científicas que estudam a utilização desses recursos e a ocupação de áreas rurais nas bacias hidrográficas são de extrema importância. É necessário, portanto, compreender os diversos processos naturais relacionados, assim como os impactos ocasionados pelas atividades humanas.

A produção agrícola, por sua vez, deve ser pensada não apenas em seu aspecto produtivo. Há de se levar em conta, também, a sua interação com os processos naturais que ocorrem na bacia onde essa agricultura é praticada. Os agroquímicos aplicados são disponibilizados com o preparo dos solos (aração, gradagem e outras práticas), e são transportados em parte (sub e superficialmente) até os rios, ou até os estoques subterrâneos que eventualmente suprem os corpos d’água superficiais em épocas de baixa pluviometria.

A agricultura, além de essencial para as populações humanas por prover energia e alimentos, também tem o importante papel de interagir com o ambiente de maneira a contribuir com o ciclo hidrológico em suas terras como nenhuma outra atividade humana faz, evitando entradas significativas de agentes poluidores.

Por essa razão, estudos como esse oferecem subsídios para a elaboração de políticas públicas e de sistemas sustentáveis para uso dos produtores rurais. Com informações da Embrapa

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