Mulheres da terceira idade descobrem prazer na escrita

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Escrever pode ser uma angústia para quem tem obrigação e tempo marcado para o registro diário, como ocorre aos jornalistas. O martírio aflige escritores profissionais, com data para entregar o novo romance contratado pela editora, e aos teledramaturgos, que toda noite distraem milhões de brasileiros dando mais uma volta na trama que está no ar.

Além desses, a escrita impõe inquietações aos pesquisadores em suas dissertações e teses a serem submetidas e aprovadas em bancas, conforme rigorosos cânones de cada área de especialização. Padecem do desassossego ainda os jovens pré-universitários quando precisam fazer uma boa redação para passar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou no vestibular.

Mas, excluindo essas razões de ofício, escrever pode ser um deleite. O prazeroso exercício de dar vazão, sem pressa e sem patrão, a lembranças, reflexões e sentimentos com criatividade e estilo – como descobriram ao fazer cursos de criação literária depois da terceira idade, algumas mulheres entrevistas pela Agência Brasil em Brasília.

Doris Topfspedt Vavallo tem mais de 80 anos e, “desde criança”, é apaixonada pela leitura e sempre cultivou a ideia de escrever um livro. O projeto foi guardado, mas após participar de três ciclos de oficina de escrita criativa se sente “mais confiante” e até recompensada ao ler seus textos para os colegas de curso. “Gosto da experiência de ter retorno. É gratificante quando a gente escreve e outras pessoas nos entendem.”

Ser o que quiser
A matemática Alice Guedes Almeida, 63 anos, sempre adorou escrever cartas. Recentemente, começou a participar dessas oficinas e também se surpreendeu. “Sou capaz de mais coisas do que imaginava. O que escrevo pode ter impacto.” Ela conta que experiência a ensinou a ser mais observadora: “aprendi a ter outro olhar para as pessoas e para o que leio.”

Alice se espanta com as possibilidades que cria em seu texto. ”Você pode ser o que quiser. Não há limites”. Segundo ela, o ambiente de interação da oficina, feita em grupo, é acolhedor e de sentimentos compartilhados. “Trocamos impressões e emoções.”

“Saio de lá rindo”, acrescenta a engenheira civil Luiza, 60 anos, que prefere ser identificada apenas pelo primeiro nome. Na diversão, criou uma personagem feminina. Alimenta as suas estórias com o que ouve na rua, em casa, com amigas e familiares. “Ela representa as mulheres que eu conheço. É um monte de gente ao mesmo tempo.” De acordo com Luiza, a prática de escrever “é uma terapia”.

Escrever sem ambições
“Toda arte é terapêutica. Escrever é uma arte”, concorda a economista aposentada, de 67 anos, Hortência Cunha Petra, pseudônimo que inventou para dar entrevista. “Escrevo sem ambições. Eu quero escrever, só isso. É divertido”, conta ao falar de sua terapia.

A estima pela palavra começou a ser cultivada na adolescência por Hortência, nos diários de menina. Nas oficinas que frequentou, descobriu que o gesto ainda lhe cai bem. Ela se admira com o caminho de sua prosa literária. “A escrita toma um rumo, ela própria. Acontecem coisas à minha revelia. Há palavras que se impõem.”

Doris, Alice, Luiza e Hortência fazem oficinas ministradas por Lorena Sales dos Santos, doutora em literatura pela Universidade de Brasília e pela Indiana University (EUA). De acordo com a professora, há mais mulheres procurando grupos de escrita, “especialmente nessa faixa etária acima dos 60 anos”.

Músculos criativos
O método de estimular e exercitar a escrita, Lorena conheceu e adaptou das experiências que teve nos Estados Unidos à época do doutorado. Em sua oficina, a professora “trabalha para que a escrita não precise acontecer em um processo solitário. Escrevemos em grupo, compartilhamos, trocamos feedbacks respeitosos e crescemos na escrita juntos. Costumo dizer que nossos grupos e oficinas são uma academia para os músculos criativos.”

A oficina já acolheu pessoas de 12 a 83 anos e mantém um blog com as suas publicações. A professora trata a todos como “escritores”. No caso dos “escritores acima de 60 anos”, se diferenciam porque “escrevem de tudo e gostam tanto de escrever, quanto de partilhar e ouvir os textos dos outros escritores de várias faixas etárias. É uma troca muito rica!”

“Essa galera [de mais de 60 anos] gosta de ler, escrever, participar, reunir e trocar textos”, elogia Tiago Novaes, doutor em psicanálise escrita pela Universidade de São Paulo, que acumula 12 anos à frente de cursos e oficinas de criação literárias. “Tenho alunos com mais de 60 anos que querem publicar, fazer livro e ganhar prêmio.”

A sua experiência mostra que as pessoas da terceira idade sempre foram “público expressivo” em suas aulas e costumam ser “menos ávidos e narcisistas” e “mais pacientes com o curso” que os mais jovens, apesar de eventuais dificuldades com a tecnologia, como a plataforma do seminário online e gratuito que mantém na internet.]

Tiago encoraja a todos que tenham algo a contar ou inventar, mas alerta que os cursos podem ser exigentes. Segundo ele, “a escrita é forma, precisa envolver o interlocutor”. Além disso, “escrever mobiliza questões muito íntimas. Pode atar ou desatar nós.” Com Agência Brasil

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