Barragem | Filme sobre desastre em Mariana estreia no Festival do Rio

BARRAGEM começa com imagens impressionantes: a destruição de um vale após o rompimento da barragem de rejeitos de mineração, conhecida como Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. As águas de um pequeno córrego são invadidas por gigantescas ondas de lama, que passam por cima de tudo. A partir daí, o filme acompanha a luta dos moradores do distrito de Bento Rodrigues contra a poderosa mineradora Samarco, para conseguir a reparação por suas perdas. O documentário, dirigido por Eduardo Ades (“Crônica da Demolição”, “Torquato Neto – Todas as horas do fim”), fará sua première mundial no Festival do Rio, competindo na seção Novos Rumos. O evento acontece entre 9 e 19 de dezembro, exclusivamente, de maneira presencial.

As imagens que abrem o longa, feitas por um funcionário de uma terceirizada da Samarco, marcam o início de uma batalha judicial que o diretor acompanha de perto, trazendo à tona o elemento mais humano dessa tragédia: suas vítimas. Ades, que estava finalizando seu segundo longa, quando do rompimento, sentiu a necessidade de registrar o fato e seus desdobramentos. As filmagens começaram pouco tempo depois do rompimento, no começo de 2016, e seguiram por todo esse ano. O diretor e seu equipe voltaram em 2019, para finalizar as histórias.

“Era um assunto muito importante e que precisava ser documentado. Eu tinha acabado de lançar ‘Crônica da demolição’, e estava trabalhando na montagem do ‘Torquato Neto’, que são dois filmes que falam sobre passado – tocam em assuntos do presente, claro – mas são filmes de material de arquivo. E, naquele momento, eu queria fazer um filme mais urgente. De repente aquele assunto mais urgente do presente estava ali na minha frente.”

Ades, que trabalhou com Maria Augusta Ramos, como produtor, em “Morro dos Prazeres”, percebeu que a melhor maneira de capturar aquele momento de tragédia e fazer justiça às vítimas era pelo Cinema Direto. “Eu tinha vontade de estar em campo com as pessoas, e utilizando outras ferramentas documentários. O cinema direto é muito difícil porque você tem que contar com muita compreensão e colaboração de todo mundo que participa. Uma entrevista é uma coisa mais trivial que todo mundo já sabe como funciona. Cinema direto requer um tempo, requer uma parceria, uma confiança maior. Não só com um ou outro personagem, como com toda a comunidade.”

Ao trabalhar dessa forma, o diretor pode estar mais próximo dos homens e mulheres, que perderam suas casas, amigos e parentes, e transmitir no filme seus sentimentos. “A gente precisa sentir na pele o que eles estão passando. E a maneira para isso, é vivendo junto com essas pessoas, chegando próximo e com calma para acompanhar a vida deles. Aí sim a gente entende o que está acontecendo, mais do que transmitir um conteúdo.”

Para alcançar esse objetivo, Ades trabalhou com uma equipe bastante enxuta, o que também possibilitou maior proximidade com os moradores de Bento Rodrigues. Era formada pelo diretor de fotografia e câmera Thiago da Costa Oliveira, que tem formação e experiência em antropologia, e, por isso, sabia bem como melhor filmar uma comunidade; o técnico de som Antônio Carlos Liliu; e a produtora local Claudia Pessoa, que ajudou nos contatos e na aproximação com os moradores e moradoras da região.

Com cerca de 140 horas de material bruto, o diretor trabalhou em parceria com João Felipe Freitas na montagem. Ao todo, foram 2 anos desse processo, buscando a construção de uma narrativa, ao mesmo tempo coesa e que também transmitisse as dúvidas e incompreensões das vítimas, que esperam até hoje uma resolução para o caso.

O documentarista também conta que uma das coisas que mais o atraiu para fazer BARRAGEM foram as pessoas de Bento Rodrigues. “Discutia-se muito na televisão sobre as causas do desastre e os danos e crimes ambientais, mas muito pouco se falava sobre o aspecto dos Direitos Humanos, a tragédia das pessoas que foram atingidas, que perderam casa, que que perderam trabalho, fonte renda, modos de vida. E, quando cheguei em Mariana, conheci aquelas pessoas e fui muito bem recebido. Percebi que eu deveria e poderia contar a história delas.”

Ades destaca que BARRAGEM traz um assunto bastante atual e urgente. “Não se trata da história de 2016, é algo que ainda está acontecendo. Até hoje o reassentamento não foi entregue, até hoje tem gente discutindo indenizações, problemas com a definição dos lotes, cálculos de compensações financeiras. É um problema supercomplexo, que fica sendo jogado entre as discussões técnicas e as jurídicas, sem conseguir chegar a uma definição que repare o dano das pessoas atingidas. Nesse momento, as pessoas continuam passando pelo que registramos no filme.”

“Não é só em Mariana. Também está acontecendo em Brumadinho, e vai continuar acontecendo em outros lugares. As regras de licenciamento não se tornaram mais rigorosas, as estruturas não se tornaram mais seguras. Continuam sendo feitos grandes projetos desse tipo próximos a comunidades vulneráveis. A gente sabe que esses grandes empreendimentos vão estar localizados onde tem populações tradicionalmente mais pobres. Essas empresas trituram as pessoas, realmente passam por cima com a lama, com o poderio de advogados. E BARRAGEM é um filme que fala sobre esse processo de indiferença em relação à população, de todas as estratégias que eles usam para desmobilizar a comunidade e economizar nas reparações. É o lucro acima de tudo. Mas o filme também fala de resistência. E de como algumas pessoas conseguiram encontrar na luta um lugar de reafirmação de identidade e pertencimento.”

Sinopse
BARRAGEM é um documentário em cinema direto sobre a luta dos atingidos pelo maior desastre ambiental do Brasil para obter reparação. Após o rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco, em 2015, os moradores de Bento Rodrigues ficaram sem casa e sem fonte de renda. Desilusão, desinformação, desunião e protelações marcarão o caminho de resistência dos atingidos ao longo dos anos. Com informações de Sinny Assessoria e Comunicação

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