Papa Francisco visita Chipre e Grécia

O A dos Apóstolos Barnabé e Paulo, o E de ecumenismo, o M de migrantes, o H de humanidade, o mesmo invocado pelo Papa em relação às muitas pessoas que morrem no Mar Mediterrâneo. Naquele “mare nostrum” sobre o qual se debruçam Chipre e Grécia, prontos para acolher o Papa a partir desta quinta-feira até à próxima segunda-feira. O alfabeto da 35ª viagem apostólica internacional de Francisco – a terceira em 2021, após a histórica visita ao Iraque em março e a peregrinação a Budapeste e à Eslováquia em setembro – está incluído nestas letras, iniciais de palavras que dão forma concreta ao significado de um itinerário que, num período de 4 dias, 1 hora e 35 minutos, fará com que o Papa percorra um total de 4.643 km. As várias etapas da viagem papal serão marcadas pelos 11 discursos que Francisco deverá proferir nas várias ocasiões, divididos em discursos reais (9), homilias (2) e Angelus (1). Dez, por enquanto, são os temas que parecem emergir mais claramente.

Apóstolos
São Barnabé e São Paulo foram os evangelizadores de Chipre, onde chegaram juntos em 46, e da Grécia, uma terra de fé profundamente enraizada. Duas figuras imponentes, firmes na fé e fortes na amizade, em nome de Cristo. É nas suas pegadas missionárias, portanto, que o Papa Francisco se apresenta, seguindo seus exemplos de pregadores do Evangelho em dois países que idealmente unem o Oriente e o Ocidente. Como o Pontífice assinalou na Audiência Geral desta quarta-feira, o que tem início nesta quinta-feira “será uma viagem às fontes da fé apostólica e da fraternidade entre cristãos de várias confissões”.

Consolação
O lema da etapa de Francisco em Chipre é “Consola-nos na fé”, inspirado no nome de São Barnabé, que pode significar “filho da consolação”. Desta forma, explica uma nota oficial, o objetivo é sugerir a importância do conforto e encorajamento mútuos, “dimensões essenciais para o diálogo, encontro e acolhimento, bem como traços salientes da vida e história da ilha”. Chipre tem na sua história muitos séculos conturbados, marcados primeiro pelo domínio otomano, depois pelo domínio britânico e finalmente pela invasão da Turquia. Simbolizando tudo isto, ainda hoje, está a “linha verde”, o muro militar que corta Nicósia de noroeste para sudoeste, tornando-a a única capital do mundo ainda dividida em duas fracções separadas: a do sul, capital da República de Chipre, e a do norte, capital da República do Norte de Chipre, reconhecida apenas por Ancara. Apesar desta complexa realidade, a ilha é um exemplo positivo: basta mencionar as palavras de Bento XVI que visitou o país em junho de 2010. “Chipre pode desempenhar um papel especial na promoção do diálogo e da cooperação”, disse o então Pontífice. “O caminho que está percorrendo é um caminho que a comunidade internacional olha com grande interesse e esperança”.

Ecumenismo
Em ambos os países, Francisco irá se encontrar com os líderes das Igrejas Ortodoxas locais. Nesta sexta-feira de manhã, 3 de dezembro, no arcebispado de Nicósia, fará uma visita de cortesia à Sua Beatitude Chrysostomos II, arcebispo ortodoxo de Chipre. Depois um encontro com o Santo Sínodo na Catedral Ortodoxa da cidade. Na tarde de 4 de dezembro, porém, no arcebispado Ortodoxo da Grécia, o Papa irá se encontrar com Sua Beatitude Ieronymos II, arcebispo de Atenas e de toda a Grécia. O próprio Ieronymos II retribuirá a reunião na noite de domingo, 5 de dezembro, saudando o pontífice na Nunciatura. As conversações com os dois arcebispos ortodoxos terão lugar “em nome do Senhor da paz”, explicou o Pontífice na mensagem vídeo de saudação aos habitantes dos dois países, divulgada nos últimos dias, e ambas as visitas trarão consigo “uma graça sinodal, uma fraternidade apostólica”, unida a “grande respeito”.

Europa
Na mesma mensagem vídeo, o Papa definiu esta viagem como “uma oportunidade de beber das antigas fontes da Europa: Chipre, uma extensão da Terra Santa no continente; Grécia, a pátria da cultura clássica”. Não só: ambos os países são abraçados pelo Mediterrâneo, aquele “mare nostrum” do qual “a Europa não pode prescindir”, salientou Francisco. Essas águas, de fato, ligam tantas terras, convidando-nos a “navegar juntos, não a dividir-nos indo cada um por si, especialmente neste período em que a luta contra a pandemia ainda requer muito empenho e a crise climática incumbe pesadamente”.

Fraternidade
Atualmente, a Igreja Católica cipriota é composta principalmente por fiéis latinos, que são 38.000 (4,47%), e por maronitas (1,5%), mais uma pequena comunidade católica armênia (0,3%). Na Grécia, por outro lado, existem 133.000 católicos numa população de quase 11 milhões (1,2%). Destes, menos da metade são gregos. Nas últimas décadas, a presença de católicos de origem estrangeira que se estabeleceram permanentemente na Grécia cresceu significativamente. A estes devem juntar-se vários milhares de trabalhadores imigrantes com autorizações de residência temporária e requerentes de asilo. São, portanto, “pequenos rebanhos”, como explicou o Papa Francisco, “irmãos e irmãs católicos que o Pai ama com muita ternura e a quem Jesus o Bom Pastor repete: ‘Não temas, pequeno rebanho’ (Lc 12,32)”. A eles, num espírito de fraternidade, o Papa levará “o encorajamento de toda a Igreja Católica”.

Jovens
Tal como com em outras viagens de Francisco, esta 35º viagem apostólica será encerrada com um encontro com os jovens: na manhã de 6 de dezembro, pouco antes de partir para Itália, o Papa saudará os jovens gregos na Escola S. Dionísio das Irmãs Ursulinas em Maroussi (Atenas). Francisco ouvirá as vozes de muitos jovens, cruzará com seus olhares, acolherá os testemunhos daqueles que vêm de países dilacerados por décadas de conflito, tais como a Síria. O fato que o último grande evento da visita papal seja precisamente um abraço ideal com as gerações mais jovens destina-se a ser uma forte mensagem de recuperação, não só para a Grécia, mas também para o mundo inteiro.

Migrantes e o Mediterrâneo
Este é o tema principal desta viagem, que será expresso em dois momentos chave do programa: nesta sexta-feira, às 16 horas, na igreja paroquial de Santa Cruz em Nicósia, Francisco participará de um momento de oração ecumênica com os migrantes. No domingo de manhã, em vez disso, irá a Mytilene-Lesbos para encorajar os refugiados acolhidos no “Centro de Acolhimento e Identificação”. Na ilha, o Papa terá “a oportunidade de se aproximar de uma humanidade ferida na carne de tantos migrantes em busca de esperança”, como recordou nesta quarta-feira na Audiência Geral. Neste caso, será a segunda vez que o Papa irá a essa ilha, que já tinha visitado em 16 de abril de 2016 para levar proximidade e solidariedade aos refugiados no campo de Moria. No seu regresso dessa visita, no voo papal, Francisco acolheu 12 refugiados sírios e acompanhou-os a Roma para lhes oferecer assistência. Na mensagem vídeo para esta viagem, o próprio Pontífice disse: “penso naqueles que, nos últimos anos e ainda hoje, fugiram da guerra e da pobreza, chegando às costas do continente e em outros locais, e encontrando não hospitalidade, mas hostilidade, e até mesmo sendo explorados. Eles são nossos irmãos e irmãs. Quantos perderam as suas vidas no mar! Hoje ‘o nosso mar’, o Mediterrâneo, é um grande cemitério”. Daí o seu forte apelo: “O mar, que abraça muitos povos, com os seus portos abertos, lembra-nos que as fontes de vida em conjunto residem na acolhida mútua”.

Paz
O logotipo da viagem do Papa a Chipre retrata, além de Francisco e São Barnabé, um ramo de oliveira atado a uma espiga de trigo, sinais de paz e de comunhão. Para a Grécia, por outro lado, foi criado um desenho que representa a Igreja como um barco nas águas turbulentas do mundo, com a Cruz de Cristo como o mastro principal e o Espírito Santo a encher as velas. A sua forma e cor amarela evocam a mitra papal, sublinhando que Francisco chega como um “amigo da Grécia”.

Esperança
O lema da viagem apostólica à Grécia é “Abramo-nos cada vez mais às surpresas de Deus”. A frase é retirada da mensagem do Papa para o 36º Dia Mundial da Juventude, celebrado em 21 de novembro passado, e que na sua versão completa diz: “Estejamos abertos às surpresas de Deus, que quer iluminar o nosso caminho com a sua luz”. Há um claro apelo à esperança: como explica uma nota oficial, “num momento em que estamos sofrendo as consequências da pandemia e da recente crise financeira, expressamos a nossa esperança de que a visita do Papa traga um raio de luz para o futuro da Grécia”. Após a grave crise da dívida soberana que começou em 2009, a nação grega viu a sua situação econômica desabar, de tal modo que teve de recorrer três vezes ao plano internacional de salvamento. Em 2018, o país mostrou alguns sinais de recuperação, mas pouco depois a pandemia da Covid-19 virou novamente a situação. Até hoje, a nação helênica registou mais de 924.000 contágios por coronavírus e quase 18.000 mortes. Para não mencionar os danos que a emergência sanitária causou a setores-chave como o turismo e a indústria da construção naval, tanto que em 2020 o PIB nacional diminuiu 8,2%, enquanto a dívida pública saltou para mais de 200% do PIB nacional, o mais alto da União Europeia.

Humanidade
Especialmente para a etapa em Lesbos, Francisco descreveu-se como “um peregrino às fontes da humanidade”, firme na sua convicção de que “as fontes da vida comum só voltarão a florescer na fraternidade e na integração: juntos”. “Não há outra forma”, reiterou ele. E assim é a partir do “passado luminoso” da Grécia, mas também de Chipre, dois “países ricos em história, espiritualidade e civilização”, que o Pontífice parece estar pedindo a todos, católicos e não-católicos, um estremecer de humanidade, um futuro de nova esperança. Com informações da Agência de Notícias do Vaticano.

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