Estudo revisa alterações e megatendências dos sistemas alimentares pós-pandemia

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A explosão da pandemia de covid-19, envolvendo muitas das grandes economias do planeta, está alterando progressivamente as megatendências para os sistemas alimentares. O ritmo de implantação de tecnologias como internet das coisas (IoT), automação e robótica, inteligência artificial e aplicativos digitais acelerou, e elas já são uma realidade na produção agrícola. O surgimento de plataformas de comércio eletrônico para facilitar as transações entre agricultores e consumidores finais é outra inovação que tende a revolucionar os segmentos de logística e marketing, fruto do isolamento social e dos novos padrões sanitários.

São possíveis tendências, surgidas durante a pandemia, que poderão influenciar o desenvolvimento dos setores de consumo na era pós-covid-19. Destacam-se ainda: a busca crescente por produtos orgânicos, o aumento nos gastos com proteínas alternativas, o interesse do consumidor por vitaminas e suplementos alimentares, bem como o aumento do uso de aplicativos para entrega de alimentos preparados, devido ao fechamento de restaurantes e fast-foods.

Por outro lado, a demanda por alimentos chamados “premium”, mais sofisticados, como os cortes “especiais” de carnes bovinas, deverá sofrer forte diminuição devido a fatores como desaceleração econômica global, aumento do desemprego, diminuição da renda per capita e novos hábitos de consumo, em decorrência dos inúmeros fatores pós-pandemia.

Essas e outras informações estão no estudo Segurança alimentar pós-covid-19: megatendências dos sistemas alimentares globais, elaborado pela Secretaria de Inteligência e Relações Estratégicas (Sire). O trabalho analisa as principais tendências dos sistemas alimentares globais para os próximos 20-30 anos, após a eclosão da pandemia, e seus reflexos no aumento do desequilíbrio da segurança alimentar.

“Uma série de eventos econômicos e sociais, ocorridos em 2020, como resultado da explosão global da pandemia de covid-19, envolvendo muitas das maiores economias, alterou, progressivamente, as dinâmicas internas e externas de muitos desses países em uma direção mais protecionista e nacionalista. Embora seja cedo para prever, com algum grau de convicção, como será o mundo após a pandemia, uma revisão das megatendências setoriais e macroeconômicas indica que algumas podem ser ampliadas e outras aceleradas”, destaca o autor do estudo, o pesquisador Mário Seixas.

O trabalho foi elaborado com base em informações técnicas e relatórios de organizações internacionais e agências de risco, com destaque para o Independent Science and Partnership Council do Conselho de Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR), o Global Panel on Agriculture and Food Systems (Global Panel), Fitch Solutions Country Risk & Industry Research, pertencente à agência de risco Fitch Ratings, e os relatórios publicados pela RaboResearch, Food and Agribusiness, um departamento do RaboBank.

“O lockdown e o distanciamento social contribuíram para vários choques simultâneos em todo o sistema alimentar global. Alguns governos fecharam pontos de venda formais e informais de alimentos e restringiram severamente a movimentação de cidadãos, enquanto a produção e o processamento de alimentos, transporte, comércio e varejo foram profundamente afetados”, contextualiza Seixas.

Segundo dados do Global Panel, antes da pandemia, 135 milhões de pessoas passavam fome no mundo. No entanto, só de  fevereiro a junho, houve um incremento estimado de cerca de 45 milhões de pessoas, de acordo com o alerta do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas. Segundo a agência, até o final do ano, 265 milhões de pessoas podem enfrentar insegurança alimentar aguda por causa da pandemia.

As cadeias de suprimento de alimentos também foram interrompidas quando os governos fecharam restaurantes e restringiram a presença de vendedores ambulantes de alimentos, varejistas de alimentos e transporte rodoviário, com o objetivo de limitar a propagação de infecções.

“Outro efeito da pandemia foi uma mudança na demanda por alimentos específicos. A Covid-19 alterou, pelo menos temporariamente, alguns hábitos do consumidor, particularmente onde e como comer. As implicações a curto e médio prazos são claras: restaurantes e opções consumo fora de casa provavelmente se recuperarão mais lentamente do que o inicialmente esperado”, ressalta Seixas.

Interface saúde humana, tecnologias e sistemas alimentares
Bioeconomia, biotecnologia, recursos genéticos e hiperconectividade, essenciais na aceleração da adoção da agricultura de precisão – com os consequentes aumentos de produtividade, economias de escala e readequação do uso da mão de obra agrícola -, são alguns dos fatores que influenciarão a agricultura e os sistemas alimentares.

Nessa direção, o estudo da Embrapa indica a consolidação de oito megatendências globais para os próximos anos, com horizonte para concretização até 2050.

Para Seixas, a mais importante megatendência é a interface entre saúde humana, tecnologias e sistemas alimentares. Segundo ele, os avanços científicos e a melhoria nos padrões de vida contribuem para aumentar a longevidade das pessoas, reduzindo a letalidade das doenças infecciosas. No entanto, obesidade, desnutrição, resistência a doenças, bactérias e micróbios acarretarão crescentes pressões para o aprofundamento do conhecimento da saúde humana. Somado a isso, é preciso também considerar doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e depressão combinadas com a poluição e a medicina reativa no lugar da preventiva.

“Por isso, consumidores e suas escolhas são fatores importantes nos processos de tomada de decisão dos produtores, com possíveis impactos na segurança alimentar e nutricional, no meio ambiente e na sustentabilidade financeira do agronegócio global”, afirma o pesquisador.

Outra megatendência diz respeito a novas tendências transformadoras do sistema alimentar global: conscientização quanto a aspectos de saúde e preferência por produtos de nicho, combinadas com a crescente influência da tecnologia, tendem a transformar a indústria de alimentos de múltiplas formas. “Esforços adicionais para reduzir a perda de alimentos e o desperdício são urgentemente necessários”, complementa Seixas.

O estudo prevê que Brasil, Estados Unidos e alguns países da Europa aumentarão sua produção e os excedentes de alimentos nos próximos anos. Eles continuarão como os fornecedores agrícolas mais importantes no cenário internacional. Ásia, África e alguns países da América Latina (incluindo o México), embora com aumentos significativos da produção em um horizonte de dez anos, podem se tornar mais vulneráveis quanto à segurança alimentar, devido ao forte crescimento do consumo local de alimentos e ao precário controle fitossanitário.

Inovações tecnológicas
As inovações também estão no conjunto das megatendências apontadas pelo estudo. Os avanços em genética, nanotecnologia, automação, robótica e inteligência artificial e outras tecnologias emergentes estão acelerando. A hiperconectividade, a internet das coisas, a realidade aumentada e os sistemas de inteligência coletiva, combinados com a redução dos custos de implementação de novas tecnologias, estão transformando sistemas inteiros de produção, gerenciamento e governança.

Outra megatendência é a ascensão dos consumidores “seniors”, mais idosos. A população global se expandirá em quase 2 bilhões nas próximas décadas até 2050. “Isso criará essencialmente um segmento de consumo, que exigirá diferentes produtos e estratégias de marketing e branding para empresas voltadas a esse novo consumidor”, detalha Seixas.

Por outro lado, atenção especial é dedicada às futuras gerações e sua propensão a aceitar e consumir novidades em alimentos. Com a estimativa de aumento da população mundial para 9,8 bilhões em 2050, a questão da escassez de alimentos e da segurança alimentar torna-se estratégica e crítica.

Por isso, sob o ponto de vista do consumo, a legalização e a aceitação de alimentos GM podem contribuir para a segurança alimentar, já que, segundo as agências internacionais que subsidiaram o estudo, há concordância científica de que alimentos derivados de culturas GM não representam maior risco para a saúde humana. No entanto, consumidores mais jovens serão mais críticos quanto ao consumo desses alimentos. Não se espera uma aceitação geral nos mercados desenvolvidos antes de 2050, especialmente na União Europeia, onde interesses fragmentados tornam a decisão política mais difícil.

“Nesse sentido, irá se consolidar entre os jovens a tendência pelos alimentos não tradicionais, como a carne sintética. Mais investimentos surgirão à medida que as preferências dos consumidores mudem progressivamente para dietas ricas em proteínas de origem não animal e outras alternativas”, explica Seixas, destacando estudo recente da Fitch Solutions.

De acordo com a agência, estima-se que, até 2050, várias proteínas cultivadas em laboratórios estarão disponíveis e serão incorporadas às dietas. “Nos próximos 30 anos, as empresas de alimentos e bebidas investirão cada vez mais em proteínas celulares, pois fornecem uma solução atraente para as preocupações ambientais e de bem-estar animal, além de diminuir a insegurança alimentar”, afirma a Fitch.

O relatório da agência deste ano identificou empresas de tecnologia que já começaram a investir em carne cultivada em laboratório, com destaques para Memphis Meats (EUA), Aleph Farms (Israel), HigherSteaks (Reino Unido), Mosa Meat (Holanda) e Meatable (Holanda), todas competindo para viabilizar mercadologicamente o produto. Embora os altos custos de produção continuem sendo barreira fundamental, a médio e longo prazos, estima-se uma redução nesses valores.

Comércio eletrônico e aplicativos
No âmbito do comércio eletrônico e aplicativos, megatendência que moldará a forma como varejistas operam, o estudo identificou três desenvolvimentos importantes para os próximos 30 anos: (a) drones: a entrega de alimentos por drones reduzirá significativamente os prazos de entrega, especialmente em grandes áreas metropolitanas e regiões remotas; (b) veículos autônomos: o potencial de combinação entre veículos autônomos com drones tem o potencial de diminuir significativamente os prazos de entrega; (c) restaurantes dedicados à entrega de produtos finalizados, por aplicativos, não abertos ao público.

Apesar dos avanços tecnológicos e da preocupação com a segurança alimentar, as mudanças climáticas e a degradação ambiental permanecem como uma forte megatendência. Para as agências de risco, “as mudanças climáticas são irreversíveis e, mesmo que todas as emissões de atividades humanas fossem interrompidas, o clima continuaria a se alterar”.

Agtechs
O estudo identificou forte presença das agtechs nos próximos anos, como base para a inovação e evolução da produção agrícola. Estima-se que os principais avanços venham das novas tecnologias de automação e robótica, da hiperconectividade e do acesso à internet, das novas tecnologias empregadas no melhoramento vegetal e animal, sistemas mais avançados de gestão de recursos e uma melhor compreensão da relação alimentos-consumo-saúde humana.

“O uso de agtechs poderá beneficiar várias operações e negócios no processo produtivo, como os produtores rurais e os provedores de serviços de tecnologia ao setor”, explica Seixas. De acordo com o pesquisador, os mercados emergentes, a grande maioria dependente de mão de obra qualificada, terão estilos diferenciados de adoção da agtech. “A Ásia se destacará em termos de adoção devido aos fortes fundamentos de TIC. A China adotará a agtech em um horizonte de cinco anos, ajudada por um apoio público ativo. Na América Latina, o Brasil e a Argentina tenderão a sobressair devido, principalmente, à pujança e à competitividade internacional do agronegócio privado e da hiperconectividade”, finaliza.

O estudo “Segurança alimentar pós-covid-19: megatendências dos sistemas alimentares globais” integra a Série Diálogos Estratégicos da Embrapa e faz parte do Sistema Agropensa.  Com informações da Embrapa.

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