Devotos fazem festa na entrega de presentes a Iemanjá, no Rio e Salvador

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Bonecas, rosas, ramos de arruda, palmas brancas e muitas frutas coloriram os balaios cheios de presentes à Iemanjá, entregues hoje (2), por devotos na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro. Mais uma vez, religiosos e curiosos se reuniram no local para celebrar a “Rainha do Mar” no seu dia, fazer pedidos, orações e agradecer pelo que acreditam ser bençãos da orixá, celebrada pelas religiões de matriz africana em todo o país.

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No Rio, pelo menos duas festas atraíram centenas de pessoas. Uma delas, a da Praça XV, onde a presidenta da Casa de Cultura Estrela d’Oya, Atanízia Bispo, voltou a organizar uma procissão, partindo da Lapa, no centro, e que faz parte de uma promessa feita há mais 20 anos, quando seu filho recém-nascido corria risco de morrer. “Prometi à Iemanjá que se ele sobrevivesse, nunca mais daria presente a ele, mas à ela”, explicou a mãe de santo. A cinco quilômetros dali, o Afoxé Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro organizou uma celebração para a “Rainha do Mar”no Cais do Valongo.

Dezenas de pessoas aderiram ao cortejo na Lapa e seguiram, por dois quilômetros, até a Praça XV, um carro de som onde músicos tocavam e cantavam em yorubá, fazendo saudações. Fogos de artifício também foram disparados para “acordar” e celebrar a orixá, também chamada Janaína.

Entre os devotos, estava Ivonte de Cruz, de 84 anos, carregando flores para depositar no mar. Todos os anos ela se junta ao cortejo. “Essa procissão daqui é muito bonita. É Iemanjá é quem nos dá proteção, venho sempre”, disse, carregando com dificuldade suas arrudas e palmas.

Com um balaio colorido que lhe cobria a cabeça, Patrícia Souza, 42 anos, integrou o cortejo pelo 22º ano. Ela não é da umbanda ou candomblé, mas é devota da orixá. “Não está pesado [o balaio], aqui tem frutas e flores, como em um sonho que eu tive e Iemanjá me pedia”, contou ela que, que carregava um cesto enfeitado com maças, uvas e rosas brancas e amarelas

No fim do trajeto, na Praça XV, dezenas de pessoas de diversas regiões do Rio aguardavam a chegada do “presente”, como é chamado o cortejo com barcos e balaios com oferendas à Iemanjá. D Pai Alexandre, que comanda uma casa religiosa em Itaboraí, na região metropolitana, explicou que celebrar Iemanjá, na umbanda, é “celebrar a paz”. “Todos nós devemos agradecer a eIa pelo nosso equilíbrio é discernimento, é ela quem é responsável por isso”.

Filhos de Gandhi
A cinco quilômetro dali, o Afoxé Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro organizou a 52ª cerimônia de entrega do presente à Iemanjá. Os integrantes do grupo se reuniram no Cais do Valongo, principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, onde cantaram, jogaram capoeira e depois partiram para a Praça Mauá, para depositar oferendas. O objetivo deles era ocupar o cais, um ponto de importância histórica para entender a diáspora negra.

“Para nós, é muito importante estar aqui, nesse lugar muito caro, que está sendo cada vez mais elitizado, invisibilizando à população local. Porque aqui é o coração nacional [da chegada] dos negros, africanos, que foram escravizados. Então, isso aqui é resistência, estamos ressignificando esse espaço”, disse Thiago Laurindo, diretor de projetos do afoxé.

Como parte das celebrações do Dia de Iemanjá, religiosos também ofereceram ao público uma peixada nas sedes de suas entidades religiosas, na Saúde e na Lapa. Este ano, não houve a tradicional saída da barca da Praça XV com os presentes para serem depositados em alto-mar. A concessionária disse que não recebeu pedidos para cessão do veículo.

Milhares de moradores de Salvador e turistas participaram hoje (2), em Salvador, das homenagens a Iemanjá, conhecida como Rainha do Mar no candomblé. Os festejos oficiais começaram ainda de madrugada e seguiram ao longo do dia sob sol forte e calor de mais de 30 graus Celsius.

A festa religiosa é organizada pela Colônia de Pescadores da Praia de Santana, no Rio Vermelho, onde fiéis e pescadores passaram a noite levando oferendas ao mar. Antes do amanhecer, uma imagem de 1,5 metro de Iemanjá chegou ao local carregada em um andor de madeira rodeado de flores e espaço para mais oferendas à homenageada.

A fila para entregar presentes a Iemanjá ia da Praia da Paciência à Praia de Santana, onde se concentram as homenagens, ao lado da Casa de Iemanjá e da sede da colônia de pescadores. A aposentada Irene Moscalenco esperou mais de uma hora para conseguir entregar as flores que levou para a entidade.“Venho aqui todos os anos, há muito tempo, e sei que ainda tem muito o que esperar, mas sei que vale a pena, porque tudo depende da fé. As flores que trago são em agradecimento, sempre, porque ela me concede muitas graças.”

Também em agradecimento, a jornalista Carla Aragão participou da homenagem ao lado da filha e do marido e também levou flores. Diagnosticada com endometriose, a jornalista temia não poder ter filhos e diz ter conseguido graças à fé. “Minha filha foi encomendada a Iemanjá. Há três anos eu vim pedir a graça da gravidez, no ano seguinte vim agradecer por estar grávida. No ano passado vim com a minha pequena nos braços, aos 4 meses. Este ano, retornamos juntos agradecer pela vida da nossa filha e pelo um ano e 4 meses ao lado dela. Fiz muitos pedidos a ela e agora só tenho agradecimentos”, disse, emocionada, a mãe de Maria Luna.

Sincretismo Religioso
Apesar de a festa ser organizada por adeptos do candomblé, a festa do Rio Vermelho evidencia o sincretismo religioso da capital baiana e reúne católicos, espíritas e fieis de religiões de matriz africana. Até quem não segue uma religião específica foi saudar a homenageada, por reconhecer a importância da data para os devotos.

“Cheguei aqui em Salvador com 13 anos. Desde então sou adepta do candomblé, do espiritismo e do catolicismo. Apesar de não ser daqui, me sinto uma baiana, porque moro aqui há muitos anos. Estou levando flores, cada uma de uma cor: a vermelha é para Iansã, a amarela de Oxum, a branca e a azul, para a homenageada do dia. Só tenho a agradecer por tudo que recebo de bom”, disse a sergipana Gera Silva.

A ialorixá Jacira Ferreira ficou todo o tempo ao lado da oferenda principal – a estátua de 1,5 metro sobre o andor florido. Vestida a caráter, com uma volumosa saia branca, a religiosa recebia as flores dos devotos e enfeitava ainda mais a imagem da orixá. A delicadeza nos gestos demonstravam a calma e a tranquilidade que ela mesma diz terem vindo de Iemanjá. Após a colocação de cada flor, o líquido perfumado de alfazema era jogado sobre os objetos.

“Nós festejamos em prol de Iemanjá. Com muita alegria, estamos juntos festejando o dia dela. É muito prazeroso tudo isso. Apesar do calor, do sol quente e da minha roupa de baiana que esquenta mais ainda, não sinto nada disso, só o prazer de festejar e a certeza do trabalho bem-feito e isso é reconfortante. [Tenho] muito mais a agradecer do que pedir a ela. Nesse tempo ruim e difícil que vivemos, pedimos toda hora, mas agradecemos sempre”, disse a mãe de santo.

Por todo o percurso até o local de entrega dos presentes, ambulantes vendiam de água mineral e cerveja a acessórios de enfeite, flores naturais e lavandas de alfazema, tradicionalmente oferecidas a Iemanjá. A comerciante Jai Teles disse que só não vendeu mais por conta da concorrência, mas comemorou o sucesso na venda de colares (guias de candomblé), imagens e lembranças da festa de Iemanjá.

“Aproveito o dia de festas aqui no Rio Vermelho para melhorar as minhas vendas, que já faço em meu bairro. A procura tem sido muito grande e isso me deixa satisfeita. Aqui na minha banquinha você pode comprar alfazema, colares de contas e lembranças para turistas, enquanto eu consigo melhorar um pouco a minha renda.”

Oferendas biodegradáveis
A preocupação com o meio ambiente e o acúmulo de lixo no fundo do mar fez com que as campanhas por oferendas não poluentes se intensificassem este ano. A recomendação vem sendo feita desde o mês de janeiro, para que os devotos joguem no mar apenas flores naturais, barcos de papel e para que a alfazema seja jogada sem os frascos. A população e os organizadores atenderam às recomendações: durante as doações, integrantes da organização da festa separavam o que não poderia ser jogado ao mar e depositavam em um cesto a ser entregue, posteriormente, para reciclagem.

Por volta das 15h (horário local), uma multidão acompanhou os pescadores que levaram o andor com a imagem de Iemanjá, além dos milhares de presentes ofertados durante todo o dia. A comemoração religiosa no Rio Vermelho terminou às 18h e a folia poderá seguir até as 22h, horário acordado entre órgãos oficiais, polícia e moradores da região.

História
A tradição diz que as oferendas a Iemanjá começaram a ser feitas pelos pescadores em 1923, quando um grupo de pescadores ofereceu presentes à Rainha do Mar após um período de escassez de peixes. A partir daí, os pedidos foram atendidos e, desde então, todos os anos os pescadores levam as oferendas em agradecimento e pedidos por fartura e pelo mar tranquilo durante as atividades.

Há mais de 50 anos frequentando as festas de Iemanjá, um dos pescadores da colônia da Praia de Santana, Gilson dos Santos, conta que nem dormiu na última noite devido aos preparativos para a festa. Um dos organizadores do evento, o pescador faz questão de ser chamado pelo apelido que recebeu dos amigos pescadores, Comprido. Ele conta que, apesar do cansaço, consegue energias da orixá “para fazer tudo com amor e dedicação”.

“Ela que nos dá energia, porque a gente trabalha com tanta satisfação para agradecer pelo sustento da nossa família durante o ano inteiro. Temos muito o que agradecer, foi um ano bom para a nossa pesca e nossa subsistência, o mar foi generoso com a gente”, disse o pescador, prestes a completar 80 anos. Com Agência Brasil

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